“Pro multis” ou “pro omnibus”?
(2005)
Rev. Pe. Hervé Belmont
Foi em 17 de abril de 2003 que João Paulo II publicou sua encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, saudada com grandes demonstrações de satisfação, alegria e mesmo triunfo entre muitos católicos “tradicionais”: João Paulo II reabilita a doutrina do Santo Sacrifício da Missa, João Paulo II retorna à tradição e ao Concílio de Trento (ora, ora, então ele havia se afastado?)…
Houve que desiludir-se rapidamente, pois a leitura dessa encíclica foi invencivelmente detida no n.º 2 do proêmio, ou seja bem no começo. João Paulo II conta aí, conjuntamente, a instituição da Santa Eucaristia na Quinta-Feira Santa no Cenáculo e a cerimônia que ele mesmo celebrou no mesmo lugar no ano dois mil; evocando a consagração do vinho, ele escreve:
“Deinde calicem in manus vini sustulit eisque dixit: ‘Accipite et bibite omnes: hic calix novum æternumque testamentum est in sanguine meo, qui pro vobis funditur et pro omnibus in remissionem peccatorum’ (cfr Mc 14, 24; Lc 22, 20; 1 Cor 11, 25). Grati erga Dominum Iesum sumus Nobis qui permisit eodem loco ut repeteremus, mandato illius oboedientes: ‘Hoc facite in meam commemorationem’ (Lc 22, 21), voces eas ab Eo duobus annorum abhinc milibus pronuntiatas.” [1]
[1. Tal é, ao menos, o texto em latim publicado no sítio internético do Vaticano. Ouvi dizer que nos Acta, o “omnibus” foi alterado para “multis”, mas não tive ocasião de verificar. (N. do T. – De fato, foi: cf. “AAS” 95 [2003] 434.) De todo o modo, a encíclica não passou de ocasião da presente nota, que trata das traduções vernáculas do “novus ordo missæ”.]
Não é preciso ser diplomado em latim para notar a presença de pro omnibus nas palavras da consagração. Mesmo o novo ordo de Paulo VI deixara subsistir o pro multis da forma católica, deixando a vil mentira para as traduções vernáculas, que comportam seja uma locução equívoca [2], como no francês (“para a multidão”), seja uma adulteração do Sacrifício, como no italiano (“por todos” [“per tutti”]).
[2. Não nos esqueçamos de que, por natureza, o equívoco é incompatível com a eficácia sacramental: “a forma consiste nas palavras que determinam a aplicação da matéria, palavras que significam de maneira unívoca os efeitos do sacramento... formam vero itemque unam esse verba applicationem huius materiæ determinantia, quibus univoce significantur effectus sacramentales” (Pio XII, Constituição Apostólica “Sacramentum Ordinis” de 30 de novembro de 1947, n°4. AAS 1948, p. 5).]
Vil mentira? Adulteração? Sim, e eis a razão.
Para começar, substituir “pro multis” por “pro omnibus” constitui verdadeira falsificação histórica e escriturística. O Evangelista São Mateus escreve: “Hic est enim sanguis meus novi testamenti, qui pro multis [em grego: peri pollôn] effundetur in remissionem peccatorum” (Mt. XXVI, 28); assim também o Evangelista São Marcos: “Hic est sanguis meus novi testamenti, qui pro multis [peri pollôn] effundetur” (Mc. XIV, 24). Pro omnibus não se encontra em nenhum relato da instituição eucarística, nem quanto às palavras, nem quanto ao sentido: há, realmente, falsificação.
Depois, essa falsificação não é inocente. Ela está em profundo acordo com a doutrina conciliar que põe como princípio que todos os homens estão salvos: não somente todos salvos de fato (o que é falso, mas poderia ser uma boa notícia), mas todos salvos de direito, pela só Encarnação e sem que fosse efeito da Redenção de Jesus Cristo. O Vaticano II não diz isso explicitamente, não mais que João Paulo II, mas isso se depreende necessariamente dos princípios que eles ensinam. Recordemo-nos: “Já que, n’Ele, a natureza humana foi assumida, e não absorvida, por isso mesmo, também em nós essa natureza foi elevada a inigualável dignidade. Porque, pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-Se de certo modo a cada homem” (Gaudium et Spes, XXII, 2). João Paulo II, por suas primeiras encíclicas, superou-se, esvaziando a necessidade da Redenção. Tudo isso foi analisado em seu tempo à luz da doutrina católica pelo Padre de Blignières, em Jean-Paul II et la doctrine catholique [João Paulo II e a doutrina católica] (1981). Que pena que todos parecem tê-lo esquecido!
Por fim, essa falsificação é incompatível com o Sacrifício de Jesus Cristo e sua realização sacramental. Duas verdades permitem estabelecer com certeza essa conclusão.
A primeira verdade é que Nosso Senhor Jesus Cristo não ofereceu Seu Sacrifício “pro omnibus”, mas sim “pro multis”. Isso deveria ser uma evidência, pois Ele o afirma. Mas é necessário pôr os pingos nos “ii”.
A vontade antecedente de Deus é que todos os homens sejam salvos: “Deus quer que todos os homens se salvem, e cheguem ao conhecimento da verdade, pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo homem, o qual se deu a si mesmo para redenção de todos [aí está o nosso pro omnibus]…” (I Tim. II, 4-6). O sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo tem valor suficiente (infinitamente suficiente) para a salvação de todos os homens: “Ele é propiciador pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (I Jo. II, 2). Aí estão verdades certas, reveladas por Deus…
Mas na instituição da Santa Eucaristia, mas na Santa Missa, não é disso que se trata. Assim ensina o Catecismo do Concílio de Trento: “Houve, pois, muito acerto em não dizer ‘por todos’, visto que o texto só alude aos frutos da Paixão, e esta surtiu efeito salutar unicamente para os escolhidos” (Cat. Trid. XVIII, 3 [N. do T. – Na edição em português (Petrópolis: Vozes, 1951), p. 282]). Trata-se do Sacrifício tal como ele é em eficiência e não em suficiência. Trata-se do Sacrifício de Jesus Cristo tal como existe na realidade, com seu fruto efetivo; trata-se do Sacrifício de Jesus Cristo tal como é objeto da intenção de Jesus Cristo e de Sua Igreja. Trata-se do Sacrifício tal como ele é em seu ser histórico e no sacramento.
Substituir o “pro multis” pelo “pro omnibus” é, pois, exprimir uma outra coisa que não aquela que Jesus Cristo fez ao oferecer Seu sacrifício, é exprimir um ato que não existiu de fato, e portanto que não pode ser realizado no sacramento.
A segunda verdade é que todas as palavras da consagração do vinho são necessárias para a validade do sacramento e do sacrifício. Elas o são, em primeiro lugar, porque uma frase não tem sentido, não tem significação (e, portanto, não tem eficácia sacramental) antes de ser concluída. Elas o são, ademais, porque a intenção efetiva (“finis operis”) permanecendo imanente ao ato, um ato não é exprimido, não é significado se a sua intenção ainda está para sê-lo. O que é verdadeiro de toda frase, de todo ato, o é mais ainda do sacramento da Santa Eucaristia, cuja relação com a efusão da Cruz é essencial.
É por isso que Santo Tomás de Aquino diz: “totum pertinet ad vim effectivam formae… a eficácia da forma exige o todo” [3].
[3. Comentário de I Cor. XI, lição 6. Referir-se-á à ampla elucidação do Padre Maurice de la Taille, S.J., em “Mysterium Fidei”, Paris, 1924, pp. 455-472. Neste artigo, apoiamo-nos no estudo dele, e mais ainda em Santo Tomás: S. Th. IIIa, Q. LXXIX, a. 7 e seus comentários da Sagrada Escritura.]
Mesmo que, contra toda a grande tradição teológica, se quisesse professar uma espécie de minimalismo que não afirma como necessário nada além das estritas palavras “Hic est enim calix Sanguinis mei”, haveria ao menos que reconhecer como necessário que a sequência da frase não viesse exprimir o contrário do ato e da intenção de Jesus Cristo… o que é o caso.
Destarte, como fica a validade? E como fica a autoridade que fez ou deixou fazer isso?
Padre Hervé Belmont
_____________
PARA CITAR ESTA TRADUÇÃO:
Rev. Pe. Hervé BELMONT, “Pro multis” ou “pro omnibus”?, 2005, trad. br. por F. Coelho, São Paulo, junho de 2011, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-My
de: “« Pro multis » ou « pro omnibus » ?”, 1.º-VII-2005,
http://sedevacantisme.leforumcatholique.org/message.php?num=1332
CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:
f.a.coelho@gmail.com
14 junho 2011 às 16:19
Já tinha ouvido falar desse estudo do Pe. Louis-Maire de Blignières, mas jamais tinha procurado por ele. Muito obrigado por tê-lo linkado aqui para nós, Felipe! Se te for possível – e se não for abusar de sua boa vontade – traduza esse importante texto para todos nós. A importância de uma coisa desse gênero para nossa formação é enorme!
Seria bom também se um resumo da tese do Fr. Johannes Dörmann pudesse ser encontrado na net, a fim de ser traduzido e adequadamente apresentado aos que insistem em defender o legado teológico e pastoral de João Paulo II como sendo algo “exemplar” para os católicos.
14 junho 2011 às 18:06
Um bom autor sobre esse tema do “Pro Multis” vs. o “Pro Omnibus” é Patrick Henry Omlor, no seu livro “The Robber Church” – disponível no (nada pequeno) link abaixo:
http://www.novusordowatch.org/lms/ralms.htm?cc_cCourseRoot=../omlor/&cc_cDataPath=../omlor/&cc_cStructureFile=csf.xml&cc_cAutoLaunch=0&cc_cAutoZoom=0&cc_cLMSChrome=0&cc_cLinkFree=0&cc_cXMLPlayerLocation=../player/