Luzeiros da Igreja em língua portuguesa – LXXXVIII

21 de agosto de 2016

 

O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987

(2008)
J. S. Daly

 


 

Capítulo 1: O Protestantismo, a Prisão e Padre

 

A vida do sacerdote católico tradicional Padre Philip Shelmerdine (1909-1987) foi tão fascinante quanto instrutiva. Converso, marido e pai, ativista antijudaico-maçônico, prisioneiro, oficial do exército, médico, seminarista romano, sacerdote, missionário, “tradicionalista rebelde” e, finalmente, sedevacantista convicto. Espera-se que esta série de artigos o torne mais conhecido e que sua vida edificante possa inspirar aos que não tiveram oportunidade de conhecê-lo pessoalmente.

Philip Shelmerdine nasceu numa família protestante que vivia com desafogo na região central da Inglaterra (Midlands). Quando ele tinha catorze anos seu pai morreu, tendo nomeado guardião a um tio. O futuro do jovem Philip parecia já estar resolvido: depois de receber instrução na famosa escola da Charterhouse de Londres, seguiria os passos do tio entrando no negócio de fabricação de tecidos da família… e na franco-maçonaria. Mas isto era não contar com a veia de integridade obstinada do jovem Philip: um traço de personalidade que viria a pasmar todos os que estiveram ao seu redor ao longo da vida dele.

Não foi nenhum motivo religioso especial que fez Philip relutar ao ser convidado a se tornar franco-maçom: ele apenas insistiu em saber no que ele se envolveria antes de prestar um juramento solene de guardar segredo a respeito. E, quando lhe disseram que o juramento tem de preceder toda informação, ele desapontou seu tio com uma inabalável recusa.

Tirando isso, ele seguiu o caminho que lhe fora mapeado e, aos vinte e poucos anos, pediu em casamento uma bela moça da sua mesma classe. Rita Duxbury era católica, e foi explicado ao Philip que não havia como obter dispensa para matrimônio misto sem uma garantia sincera de que todos os filhos seriam educados na Fé Católica. Isso pareceu bem pouco razoável ao jovem inglês, que era favorável a um meio termo pelo qual os meninos seriam protestantes, e as meninas, católicas. Exasperado com a insistência da noiva, ele montou na bicicleta e partiu em visita ao vigário local, para pedir conselho sobre que atitude devia tomar um protestante frente às pretensões exclusivistas da Igreja Católica Romana. Insatisfeito com sua primeira visita, ele seguiu em frente até o vicariato seguinte, onde o incumbente ofereceu teorias e conselhos bastante opostos aos do primeiro, mas igualmente não convincentes. Um terceiro ministro só fez agravar o problema. No fim de um longo dia de escuta das opiniões confusas e contraditórias de todos os ministros protestantes das redondezas acerca do Catolicismo, Philip pedalou de volta para casa exausto, mas certo de uma coisa: a religião católica é a única verdadeira e, portanto, ele precisa aderir a ela, o que, depois de nela instruído, foi o que ele fez. Seu irmão mais novo Roger, indignado, recusou-se a falar com ele por muitos anos, até que, por seu turno, se converteu. (Anos depois, a mãe deles também estava sendo instruída na fé, na hora da morte dela.)

O casamento de Philip e Rita foi feliz. Um menino e uma menina nasceram. O pai começou a explorar a apicultura. Nestes anos, às vésperas da segunda guerra mundial, ele também lia insaciavelmente sobre sua nova fé e sobre as forças de subversão organizada que se opunham aos esforços da Igreja em trazer todos os homens e todas as sociedades para debaixo do sobrenaturalizante jugo suave de Cristo. As obras do Pe. Denis Fahey formaram suas concepções político-religiosas. Ele entendeu quem realmente estava por trás da guerra iminente. Ajudado pela esposa, tomou partido ao lado dos que resistiam às manobras deles. Falava em reuniões públicas, dando as razões da sua convicção de que uma guerra entre Inglaterra e Alemanha só acabaria beneficiando, em última análise, os judeus e seus fantoches comunistas. Quando irrompeu a guerra, em setembro de 1939, continuou a falar abertamente, mas cuidou de evitar dar qualquer impressão de ser favorável ao inimigo nazista. Contudo, nos termos da tirânica norma 18B da Lei de Defesa do Reino [Defence of the Realm Act], pela qual o Ministro de Assuntos Internos britânico podia prender qualquer pessoa por qualquer período sem citar qualquer motivo, ele e a esposa foram detidos e encarcerados em condições muitas vezes indizíveis. Rita ficou na prisão feminina de Holloway, deixando os filhos pequenos sem a mãe. Philip ficou primeiro no campo de confinamento do Hipódromo de York, depois noutro, mas foi transferido para diversas prisões, onde interagiu com outros internos da 18B, incluindo um almirante, um deputado e um baronete, todos igualmente contrários à ação da subversão judeu-maçônica que enxergavam por trás da guerra. Philip foi interrogado no afamado centro de detenção de Latchmere House, do MI5, centro que o público supunha reservado para o interrogatório de prisioneiros inimigos. Por semanas a fio ele ficou impedido de ir à Missa. Sua esposa foi solta após quatro meses, mas Philip continuava atrás das grades. Seu amigo deputado objetou perante a House que, na ausência de qualquer motivo atribuído para sua detenção, poderia ser uma simples confusão. Teria alguém entendido mal uma anotação no diário particular de Shelmerdine que dizia: “A rainha britânica precisa ser substituída por uma italiana jovem e fértil”? Nesse caso, o Ministro do Interior devia tomar nota de que aquilo era o diário de um apicultor! A House deu risada, e Shelmerdine acabou sendo solto em janeiro de 1941. Sua biblioteca de mais de 2.000 livros tinha sido confiscada e jamais foi devolvida, mas ao menos ele estava livre.

De início, Philip considerou a guerra injusta do ponto de vista britânico, visto que as forças do Eixo não haviam desferido ataque algum contra o Império Britânico e que o tratado de reagir contra a invasão da Polônia não tinha passado de um pretexto nada convincente, alegado no último minuto. Mas, quando o Império Britânico foi atacado (no Pacífico), ele não teve nenhum outro escrúpulo e decidiu alistar-se. O comitê de recrutamento, ciente de seu aprisionamento, exigiu que ele mostrasse satisfatoriamente que não era, como tinham sido levados a crer, um traidor de seu país. Quando Philip terminou de explicar as convicções dele e seus fundamentos, teve a satisfação não somente de ver a nuvem de suspeita dissipar-se, como até mesmo de ser discretamente assegurado de que alguns dos membros do comitê simpatizavam com os seus modos de ver. Foi admitido ao centro de treinamento de oficiais e, no devido tempo, completou o curso, recebendo a licença do Rei.

A invasão aliada da Normandia, em junho de 1944, viu Philip aos 33 anos já capitão de artilharia e intérprete regimental de francês e de alemão, servindo no primeiro regimento a pisar em solo francês. Foram dias escuros em mais de um sentido para as tropas aliadas, já que, em acréscimo aos rigores da guerra, havia a constante ansiedade pelos entes queridos na pátria. Essa ansiedade não dizia respeito somente ao bem-estar físico deles. Vezes demais este ou aquele dos companheiros de armas de Philip recebia carta anunciando que a esposa o estava abandonando por outro homem. Philip se consolava em seu íntimo com o pensamento de que Rita era católica, mas a consolação foi efêmera. Rita sucumbira aos encantos de um oficial dos Estados Unidos estacionado no Reino Unido, e um dia também Philip recebeu, do nada, a notícia atroz de que sua amada esposa decidira abandoná-lo.

A carta que fazia essa comunicação dolorosa vinha agravada por uma forma de chantagem. Não tendo nenhum pretexto prontamente admissível para embasar uma ação de divórcio contra o marido, Rita decidira forçar Philip a dar entrada num processo de divórcio contra ela o qual alegasse o adultério confesso dela, coisa que os tribunais de divórcio britânicos aceitariam prontamente, desse modo dando a ela liberdade civil para um sacrílego “re-matrimônio”. As convicções católicas de Rita ficaram inteiramente eclipsadas por sua paixão adulterina. Prevendo a oposição de Philip, como bom católico, a uma medida dessas, ela anunciou que levava consigo as crianças e só as devolveria se, e quando, um divórcio fosse obtido.

Enquanto sua esposa ia deslizando, afastando-se de seus deveres religiosos, Philip tornara-se exemplar na Fé. Um testemunho do capelão militar atesta que ele comungava diariamente durante o seu serviço de guerra. De coração partido pela infidelidade da esposa a ele e à fé dela, a reação de Philip foi edificante. Ele ia recusar, a todo custo, dar entrada no processo de divórcio em desprezo do ensinamento católico, mas, sim, o que ele ia fazer era —indo muito além do dever— perdoar a esposa e aceitá-la de volta caso ela pudesse ser pressionada por qualquer meio a arrepender-se, e do contrário ele com a graça de Deus perseveraria no celibato.

No entanto, com o passar do tempo e o evaporar-se de qualquer esperança da emenda de Rita, ele descobriu que não havia nenhuma objeção invencível a acolher um processo de divórcio pelo bem das crianças, contanto que primeiro assinasse, perante o representante do bispo, um compromisso de que agia somente para obter custódia, sem dar aval ao adultério da esposa e com firme intenção de nunca se recasar no tempo de vida da sua mulher.

As providências para essa medida puseram Philip em contato com a cúria diocesana de Leeds, e vemos que ele já então aproveitou a oportunidade para mencionar uma ideia extraordinária. Sua esposa abandonara-o sem qualquer culpa dele e partira para outro continente. Seu bispo consentira em ele obter um divórcio civil. Ele já não estava obrigado a receber Rita de volta, mesmo que ela chegasse a arrepender-se. Sendo assim, um pensamento revolucionário ia despontando na sua cabeça: será que algum dia seria possível ele se tornar sacerdote?

Na correspondência com o escritório do bispo relativa ao seu divórcio civil (pronunciado a 13 de agosto de 1947), vemos que Philip já tinha aventado a possibilidade de ter vocação e havia sido informado de que a Santa Sé teria de dispensá-lo do impedimento do estado matrimonial, mas talvez o fizesse, dadas as circunstâncias. Entretanto, ele primeiro tem de criar seus filhos pequenos. Haveria tempo suficiente para pensar numa possível vocação depois que ele tivesse cumprido os seus deveres como único dos pais que restara.

Entrementes, Philip se indagava como poderia passar utilmente os anos seguintes. Experimentou um pouco com investimentos em imóveis e com atividades comerciais, sem grande sucesso nem satisfação. Ávido de fazer alguma coisa positiva, cogitou abrir uma livraria, mas finalmente, por conselho de seu diretor espiritual, começou a estudar medicina na Faculdade de Medicina do Hospital St. George, afiliada à Universidade de Londres. Em 1953, aos 44 anos de idade, ele preencheu todos os requisitos para ser médico. Passou então algum tempo em treinamento cirúrgico como cirurgião residente no Hospital de Acidentados de Birmingham, e estava pronto, em 1955, a assumir um posto permanente, mas a vida não se mostraria tão simples. O passado de Philip voltou para assombrá-lo.

Em entrevista com uma das mais altas personalidades na medicina britânica, um judeu, o Dr. Shelmerdine ficou surpreso de ser interrogado se tinha algum parentesco com um certo Shelmerdine que havia sido preso porque estivera “confuso acerca das causas da guerra”. Num lampejo de inspiração, o jovem doutor tentou escapar com um blefe: “Não, senhor, nunca cheguei a ficar confuso acerca das causas da guerra”, declarou ele. Mas a equivocação era transparente demais, e, abafando um sorriso de canto de boca com o chiste, o homem do qual dependia o futuro de Philip na medicina britânica informou-lhe que julgava que ele não servia para ser médico e disse que frustraria toda e qualquer tentativa sua de seguir carreira na profissão médica.

Depois da decepção inicial, Philip orgulhou-se de ter mais perseguições que sofrer por sua defesa da realidade, e claro que sua convicção da maligna influência da judaico-maçonaria não diminuiu quando ele se viu, pela segunda vez, vítima das suas maquinações. O resultado desta providencial oposição no Reino Unido foi que Philip tomou o único rumo aberto para ele: a emigração.

Permissão de residência do Dr. Philip Shelmerdine.

(Permissão de residência do Dr. Philip Shelmerdine na Rodésia para o exercício da profissão médica por no mínimo dois anos.)

Abril de 1956 viu Philip como médico residente na Rodésia, onde entrou para a clínica geral em Salisbúria e fez um circuito pelo interior campestre, levando socorros médicos às incivilizadas populações tribais. Aquilo era muito diferente da situação de cirurgião londrino para a qual treinara e para a qual fora altamente qualificado, mas por outro lado seus talentos eram todos necessários em regiões aonde suas visitas levavam o único auxílio médico conhecido e ele tinha de praticar todos os ramos da medicina, da odontologia à ginecologia.

Um dia em exercício médico improvisado no interior, um homem branco todo ensanguentado entrou correndo e pediu uma cirurgia de emergência: seria possível costurar de volta o seu nariz, que saltara para fora com o coice de um cavalo? Impassível, o Dr. Shelmerdine pôs-se a trabalhar, mas para distrair seu paciente, durante a dolorosa e delicada operação, conversou com ele sobre assuntos diversos e explicou em termos simples e para leigos os detalhes da operação que estava realizando. Perto de terminar, perguntou a profissão do paciente, só para ser informado de que era um cirurgião plástico! Felizmente a operação foi bem-sucedida. Também os nativos apreciaram a passagem do doutor: numa ocasião, uma criança negra chegou a receber o sobrenome “Shelmerdine” como primeiro nome cristão, em homenagem a ele.

Em pouco tempo, o filho e a filha de Shelmerdine estavam adultos e independentes, e ele pôde ir atrás de seu desejo do sacerdócio. Para esse fim, ele primeiro tinha de encontrar um bispo disposto a aceitá-lo e a acionar a Santa Sé para obter dispensa do impedimento por ser homem casado. Não era fácil. Em 1958, o arcebispo Dom Markall S.J., de Salisbury, patrocinou um requerimento à Sagrada Congregação para a Propagação da Fé a fim de obter essa dispensa, mas foi recusada. Inabalável, o canonista romano de Shelmerdine, o Pe. A. Smetsers S.J., recomendou uma segunda tentativa, mas o arcebispo se sentiu obrigado a aceitar a recusa como terminante.

Inflamado de um desejo pelo sacerdócio que não era mera veleidade humana, Shelmerdine não se desencorajou tão facilmente. Procurando informações de todos os lados, foi informado de que o arcebispo Dom McCann, da Cidade do Cabo, na África do Sul, “colecionava padres como se fossem selos postais” e estaria especialmente interessado em um formado em medicina. O futuro cardeal não teve a menor hesitação em patrocinar um novo recurso a Roma pela necessária dispensa, com a condição de que Shelmerdine concordasse em, se fosse aceito, ser ordenado para a Arquidiocese da Cidade do Cabo. O Pe. Smetsers trabalhou no requerimento conjuntamente com o célebre canonista Pe. Bouscaren, e ficou decidido desta feita tentar diretamente o Santo Ofício, a suprema dentre as congregações romanas. O caso foi apresentado competentemente: o Dr. Philip Shelmerdine era um católico exemplar, não fora responsável pela partida da esposa, não havia probabilidade alguma de ela querer voltar para ele nem obrigação alguma da parte dele de aceitá-la caso ela o fizesse, os filhos dele eram independentes, não havia qualquer escândalo já que a esposa dele nunca fora conhecida no continente africano, ele possuía as aptidões necessárias e o reto desejo sobrenatural pelo sacerdócio e foi chamado pelo seu bispo, com a condição da dispensa de Roma. Ofereceram-se preces fervorosas e, no começo de maio de 1959, a dispensa foi recebida. Shelmerdine passou os meses de verão revisando seu latim e começou os estudos de seminário em setembro, no Colégio Venerável Beda, em Roma, onde as vocações tardias inglesas eram “aceleradas” para a ordenação. Mal sabia o esfuziante seminarista, ao contemplar o esplendor de Roma, que a figura rotunda recentemente eleita para suceder o Papa Pio XII colocaria em movimento uma revolução que, em alguns breves anos, praticamente aniquilaria a Igreja e deixaria o próprio Shelmerdine como o único padre de sua diocese a perseverar.

 

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CONTINUA EM:
Capítulo 2: Enfim, Sacerdote

 

O PADRE PHILIP SHELMERDINE 1909–1987
J. S. DALY
(2008)

CAPÍTULO 1: O PROTESTANTISMO, A PRISÃO E PADRE
CAPÍTULO 2: ENFIM, SACERDOTE
CAPÍTULO 3: DESAFIANDO BUGNINI EM SEU COVIL
CAPÍTULO 4: UM PADRE CONTRA OS BISPOS
CAPÍTULO 5: A QUESTÃO DO PAPA
CAPÍTULO 6: OS ÚLTIMOS ANOS

 

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J. S. DALY, O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987. Capítulo 1: O Protestantismo, a Prisão e Padre 2008; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, ag. 2016, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2Kt

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Luzeiros da Igreja em língua portuguesa – LXXXIX

21 de agosto de 2016

 

O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987

(2008)
J. S. Daly

 


 

Capítulo 2: Enfim, Sacerdote

 

Philip Shelmerdine chegou ao célebre Pontifício Colégio Beda de Roma em 1959. Essa instituição fora erigida pelo Papa Pio IX em 1852, para permitir que os clérigos conversos ingleses e outras vocações tardias já munidas de sólida instrução fundamental fossem preparados para o sacerdócio em só quatro anos. A teoria por trás disso não era, na verdade, que os que chegaram tarde ao sacerdócio pudessem se sair bem com menos ciência. Era, sim (com ou sem razão), que eles já haviam adquirido maturidade e podiam aprender o restante em menos tempo, estudando mais intensamente. O colégio tinha se mudado recentemente para novos edifícios, adjacentes à antiga basílica de São Paulo Fora dos Muros, construída pelo imperador Constantino em cima do lugar onde São Paulo fora sepultado. Ali, debaixo da supervisão estrita mas bondosa de Mons. Charles Duchemin, o médico, soldado reformado e ex-prisioneiro de cinquenta anos de idade começou seus estudos teológicos.

Entre seus contemporâneos ele reconheceu um nome e um rosto, que o lembraram de um de seus companheiros de detenção da 18B junto de quem, quase vinte anos antes, ele fora interrogado durante cinco semanas no afamado centro de detenção do MI5 de Latchmere House (que o público supunha reservado para o interrogatório de prisioneiros inimigos). Ao perguntar se o seu novo colega de classe era realmente o homem que ele pensava que fosse, respondeu este com embaraço que havia “deixado aquilo tudo para trás” e não queria passar pela vergonha de ser lembrado disto. Philip pensava diferente: “Meu internamento injusto sob pretexto da 18B por defender os verdadeiros interesses de meu país é a coisa na minha vida de que mais me orgulho”, respondeu ele. Para Philip Shelmerdine, opor-se à ação da conspiração judeu-maçônica era parte de um todo inconsútil com a generosa integridade que o levara, apesar de tantas dificuldades, a dedicar a vida a Deus no sacerdócio.

Felizmente os professores do seminário eram da velha escola e não havia concessão ao modernismo. Um deles, professor de teologia moral, viria a ter uma influência duradoura no novo aluno: Dom Peter Flood, O.S.B., M.D., M.Ch., B.A., B.Comm., J.C.D. Sendo ambos médicos e cirurgiões, os dois simpatizaram na hora, e Shelmerdine aprenderia muito com o estudioso beneditino de renome mundial, que descobriu no seu novo aluno uma aptidão natural para a teologia moral.

Philip Shelmerdine foi um seminarista exemplar: inteligente, trabalhador, piedoso, respeitador das regras e sem singularidade. Só teve uma ocasião em que se destacou: quando se recusou a ir junto de seus colegas de estudo em viagem de ônibus até Pietrelcina para ver em carne e osso o taumaturgo estigmatizado Padre Pio. A razão dele não foi descrença nos fenômenos que cercavam o Padre Pio, mas um ato de fé na Igreja. O seminarista Shelmerdine recordou a história de São Luís, que fora chamado a sair da corte para ver um milagre eucarístico, mas recusou-se a ir, observando que não ia crer nem um átimo a mais no ensinamento da Igreja sobre o Santíssimo Sacramento por observar o milagre, porque já cria nele com fé firme e incondicional. Assim também, Shelmerdine deixou que os seus companheiros de seminário fortificassem a fé com a excursão, sem que ele próprio sentisse essa necessidade. É de fato notável, é claro, que, quando submetido à provação da apostasia do Vaticano II, ele seria o único a ficar firme.

Embora a vida no interior do seminário permanecesse tradicional e as aulas fossem ortodoxas, era impossível para os seminaristas não estar cientes de que soprava o vento da mudança. O Reitor do Seminário, Mons. Duchemin, estivera em seu posto por muitos anos e não tinha pressa alguma em contentar os amantes de novidades mediante o relaxamento de qualquer que fosse das normas e regulamentos. Mas o rotundo novo ocupante da Santa Sé, João XXIII, mostrou ser uma figura muito diferente de seu predecessor, Pio XII, que recebera Philip Shelmerdine numa das últimas audiências que concedeu antes de sua morte, em 1958.

Um dia, Dom Peter Flood explicou aos alunos a doutrina católica de que o sacramento da Extrema Unção não tem como ser validamente administrado a quem não está doente, ainda que esteja prestes a morrer, por exemplo na guerra ou por pena de morte. Quase nenhum tempo se passou até que se tornou de conhecimento público, em Roma, que João XXIII ministrara pessoalmente a Extrema Unção a um criminoso condenado que não constava ter quaisquer problemas de saúde. Dom Peter, que não se deixava ofuscar facilmente, sugeriu caridosamente que o Santo Padre havia observado que o criminoso estava acometido de um temor que colocava a sua vida em risco ante à contemplação de sua execução iminente. Explicações forçadas desse tipo se tornariam cada vez mais necessárias, mas cada vez menos críveis, à medida que o novo regime se consolidava.

Logo chegou notícia aos seminaristas de que um concílio tinha sido convocado, mas seus superiores tomaram providências para que a excitação e os acontecimentos extraordinários não interferissem na calma fidelidade necessária a todos os estudos sérios. Apenas em ocasiões especiais os seminaristas entrariam em contato com as majestosas cerimônias do concílio que poria fim em toda majestade e toda cerimônia.

Os anos de seminário de Philip passaram voando: hábito talar e chapéu romano de abas largas, tonsura e ordens menores (1961), estudos, exames, retiros, dupla renovação de sua dispensa dos impedimentos provenientes de ter esposa ainda viva (Cânon 987§2) e de ser um converso da heresia (Cânon 985§1), subdiaconato, com a obrigação do breviário (graças às sessões do Vaticano II, o texto do Ofício Divino de cada dia era vendido como folha volante barata nas bancas de jornal de Roma!), diaconato perto do fim de 1962, e finalmente o grande dia chegou. Foi em 30 de março de 1963, na basílica vizinha, que Philip Shelmerdine foi elevado ao sacerdócio a que ele por tanto tempo se sentira chamado.

O bispo ordenante foi Dom Cesario d’Amato O.S.B., Abade de San Paolo fuori le Mura, que fora nomeado bispo titular de Sebaste, na Cilícia, pelo Papa Pio XII e consagrado bispo em 1955. O Abade Dom Amato agiu por força das cartas demissórias do ordinário de Shelmerdine, o arcebispo da Cidade do Cabo Dom McCann, pois era na diocese da Cidade do Cabo que o neossacerdote estava incardinado. Alguns anos mais tarde Philip Shelmerdine veio a se perguntar que fim levara o Abade Dom Amato e pediu informações ao seu antigo professor Mons. J. J. Curtin. Curtin respondeu que o Abade Dom Amato tinha renunciado e se retirado para Monte Cassino e falecido ali, sendo substituído em São Paulo Fora dos Muros por um Abade Dom Franzoni, que era, nas palavras de Curtin, “way out[“sem noção”, estrambótico – ndt] e que teve de ser despojado da sua dignidade abacial, após o que, “dirigiu uma espécie de conventículo carismático e coribântico na via Ostiense”. Mas num ponto ao menos Mons. Curtin se enganara, porque embora Philip Shelmerdine tenha falecido em 1987 achando que Amato o precedera na morte, este último na verdade sobreviveu-lhe 13 anos, falecendo aos 96 anos de idade, em 2000. Tendo resignado todo encargo episcopal, ele deixara de figurar durante anos no Annuario Pontificio: é de se perguntar se há outros bispos ignotos de semelhante antiguidade ainda vivos.

Ordenação sacerdotal de Philip Shelmerdine.

(Ordenação sacerdotal de Philip Shelmerdine por Dom Cesario d’Amato O.S.B., Bispo Titular e Abade de São Paulo Fora dos Muros.
Roma, 30 de março de 1963.)

O recém-ordenado Padre Philip Shelmerdine foi imediatamente munido de um celebret romano (datado aliás com dois dias de antecipação à sua ordenação!). Talvez valha a pena esclarecer o que significa um celebret, porque é uma questão em torno da qual se faz muita confusão. Todo sacerdote regularmente ordenado e em situação regular tem o direito de rezar Missa. Há padres em situação regular que ainda não receberam aprovação para confissões ou para pregar, mas não existe nem pode existir padre regularmente ordenado e em situação regular que não tenha direito de rezar Missa: a Igreja ordena os sacerdotes dela para que rezem a Missa e, pelo fato de ordená-los, dá a eles não somente o poder como também o direito de assim fazerem. O atestado conhecido como celebret (latim para: “que ele celebre”), portanto, decididamente não é uma autorização para rezar Missa. É uma prova de que a pessoa possui esse direito: uma prova de que se é um sacerdote regularmente ordenado da Igreja Católica sob nenhuma censura. Os padres na sua própria diocese, onde são bem conhecidos dos demais clérigos, não têm necessidade alguma de celebret: a função deste é atestar a situação deles caso queiram rezar Missa na igreja de um padre do qual sejam desconhecidos. Um padre como São João Vianney, o Cura d’Ars, que passa toda a sua vida sacerdotal no mesmo lugar, não tinha necessidade alguma de um. Em Roma, sim, era necessário, mas anos se passariam antes de Shelmerdine precisar de outro.

A ordenação dele não marcou o fim de seus estudos formais. Ele tinha agora vários meses de preparação intensiva para o trabalho pastoral, especialmente a tarefa grave e exigente de ouvir confissões e julgar casos de consciência no foro sacramental. No devido tempo ele foi sabatinado pelos Examinadores Apostólicos e, em 10 de junho, recebeu as faculdades dele de ouvir confissões das mãos do Cardeal Micara, Vigário Geral da Cúria Romana. Finalmente os seus dias de estudante terminaram, e o Pe. Shelmerdine viajou de navio para a África do Sul armado de indulto para dizer Missa a bordo de navios. Mal imaginava ele que, dentro em poucos anos, estaria de volta a Roma para contestar a validade de um novo rito da Missa que já vinha sendo planejado, mas do qual ele próprio até esta altura nem desconfiava.

Passaporte do Pe. Philip Shelmerdine.

(Passaporte do Pe. Philip Shelmerdine.)

A chegada do novo sacerdote à África do Sul levantou a questão do escândalo potencial oriundo do fato de a esposa dele ainda estar viva, principalmente visto que ele não conseguia disfarçar facilmente o fato de que tinha dois filhos adultos. Ficou decidido que, como réplica a qualquer indagação, ele responderia que tinha “perdido a esposa na guerra”, afirmação esta inegavelmente verdadeira, bem que não no seu sentido óbvio. O arcebispo Dom McCann designou-o primeiro como auxiliar de uma paróquia onde ele pudesse ganhar experiência pastoral. Infelizmente a ideia de atividade pastoral do pároco era jogar cartas, o mais frequentemente possível, contando com seu ajudante para secundá-lo. Desapontado e desedificado, o novo sacerdote tentou satisfazer às exigências de seu superior sem deixar que o seu espírito apostólico fosse desalentado.

A provação do pároco jogador de cartas não durou muito. No começo de 1966, McCann, recém-nomeado cardeal por Paulo VI ao término do Concílio Vaticano II, no qual participara como “progressista moderado”, designou o Pe. Philip Shelmerdine para o Hospital da Missão de Umlamli como missionário médico. Agora Shelmerdine, que já havia passado anos prestando cuidados médicos aos negros pobres da Rodésia, podia ao mesmo tempo fazer o bem aos corpos e às almas nas partes mais depauperadas da diocese da Cidade do Cabo. Em vista de suas viagens frequentes em situações difíceis, ele recebeu uma série abundante de indultos e de privilégios canônicos derivados das faculdades quinquenais do bispo, incluindo o direito excepcional de rezar Missa sozinho e o de usar um corporal grego ou antimensium em lugar da pedra de altar normal, bem como o direito de substituir todas as cores litúrgicas, exceto preto, por paramentos dourados e o direito de rezar o rosário em vez do Ofício Divino. Ele também podia abençoar rosários e outros objetos indulgenciados com uma bênção única, privilégio normalmente reservado a cardeais.

Novas provações logo vieram. Na África do Sul a nova onda de modernismo teológico e litúrgico encontrou um solo fértil no movimento anti-apartheid de inspiração comunista. O Pe. Shelmerdine não tinha quaisquer ilusões quanto ao que estava se passando nos bastidores. Aceitou sem entusiasmo as mudanças litúrgicas iniciais, incluindo um uso considerável do vernáculo e a introdução de “preces universais” [ou: “intercessões gerais”, “oração(ões) dos fiéis” – ndt] por variadas intenções, mas ele opôs recusa total quando todos os padres da África do Sul foram instruídos a rezar publicamente pelo fim da “discriminação de todos os tipos”. Pode parecer uma ocorrência de pouca importância, mas, para um homem da têmpera e das convicções de Philip Shelmerdine, nada aquém da absoluta impossibilidade moral podia justificar a recusa à ordem de um superior. Ele explicou pacientemente a seu bispo que, desde que era bebê de colo, tinha sido obrigado a “discriminar”, primeiro contra o peito esquerdo de sua mãe, quando mamava no direito, e depois contra o peito direito, quando mamava no esquerdo. Por ora, foi deixado em paz, mas ele percebia que a situação ia piorando e que as autoridades não estavam preparadas para defender a fé.

Quando chegou à sua atenção que um seu confrade sacerdote estava abusando do confessionário para encorajar casais católicos casados a praticarem contracepção, Shelmerdine denunciou-o a McCann, mas foi recebido com uma risadinha irônica. O Cardeal McCann estava bem mais preocupado em assegurar direitos de voto para milhões de negrinhos iletrados do que em salvaguardar a sacralidade da lei divina que governa a transmissão da vida humana. Bem ciente de que bispos como Denis Hurley de Durban vinham negando abertamente o ensinamento imemorial da Igreja de que a contracepção é um pecado mortífero, McCann não ia fazer da mesma infração a ocasião de privar-se de um daqueles padres que ele “colecionava como se fossem selos postais”.

Houve ainda outros conflitos ocasionais; nada grave, mas o bastante para assegurar que o Pe. Shelmerdine fosse deixado em situações humildes e não recebesse nenhum encargo permanente.

Em 1969 as controvérsias em torno da contracepção, deliberadamente atiçadas por Paulo VI, ocupavam ainda a maior parte das páginas da imprensa supostamente católica, mas já se sabia que a Missa Nova era iminente. A ruptura entre os que estavam determinados a manter a fé e os que tinham adotado a agenda do naturalismo organizado estava prestes a se tornar pública. Foi nesta conjuntura que o Pe. Shelmerdine providencialmente adoeceu: um problema no fígado exigiu hospitalização prolongada, e, enquanto ele esteve enfermo e tinha pouco que fazer além de ler e rezar, recebeu um exemplar de um livro novo controverso: Questioning The Validity of the Masses Using the New, All English Canon [Na trad. br., Questionando a Validade das Missas Que Usam o Novo Cânon Com “Por Todos”ndt], de Patrick Henry Omlor. Sua leitura marcou-o profundamente. Enxergou de imediato a inadmissibilidade da tradução “por todos os homens” na nova forma de consagração e a impossibilidade de usar uma liturgia que a contivesse.

Enquanto convalescia, o Pe. Shelmerdine visitou a Inglaterra, a França e os E.U.A., conversando sobre a crise iminente com aqueles que respeitava. Nos Estados Unidos, o Pe. Charles Coughlin ficou feliz de reconhecer em Shelmerdine um velho amigo do finado Pe. Denis Fahey. Os dois conversaram longamente, mas o conselho de Coughlin para ele —“Torne-se economicamente independente”— não era exatamente de inspiração evangélica. Assim que voltou para a África do Sul, Shelmerdine procurou seu ordinário e informou ao Cardeal McCann que tinha dúvidas quanto à validade do rito novo e não seria capaz em consciência de adotá-lo, a não ser e até que essas dúvidas fossem inteiramente esclarecidas. A primeira preocupação de McCann não foi nem com as razões das dúvidas de seu sacerdote nem com as necessidades do próprio padre atribulado, mas relações públicas: ele ordenou severamente ao seu subordinado não falar de suas dúvidas com ninguém, mas teve misericórdia a ponto de lhe permitir mencionar a matéria na confissão, se necessário.

No domingo 30 de novembro de 1969, a Missa Nova oficialmente entrou em vigor. No domingo 30 de novembro de 1969, o Pe. Philip Shelmerdine renunciou a seu posto no Hospital de Missão de Umlamli.

 

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CONTINUA EM:
Capítulo 3: Desafiando Bugnini em Seu Covil

 

O PADRE PHILIP SHELMERDINE 1909–1987
J. S. DALY
(2008)

CAPÍTULO 1: O PROTESTANTISMO, A PRISÃO E PADRE
CAPÍTULO 2: ENFIM, SACERDOTE
CAPÍTULO 3: DESAFIANDO BUGNINI EM SEU COVIL
CAPÍTULO 4: UM PADRE CONTRA OS BISPOS
CAPÍTULO 5: A QUESTÃO DO PAPA
CAPÍTULO 6: OS ÚLTIMOS ANOS

 

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J. S. DALY, O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987. Capítulo 2: Enfim, Sacerdote 2008; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, ag. 2016, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2Ko

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Luzeiros da Igreja em língua portuguesa – XC

21 de agosto de 2016

 

O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987

(2008)
J. S. Daly

 


 

Capítulo 3: Desafiando Bugnini em Seu Covil

 

Vamos dar um passo para trás e descrever Philip Shelmerdine tal como a chegada da nova liturgia o encontrou. Aos sessenta anos de idade, era ainda um padre “jovem”, no sentido de que tinha sido ordenado fazia apenas seis anos e não possuía nenhum encargo eclesiástico permanente. E, muito embora sua formação de seminário tivesse sido ortodoxa e consistente, ele não tinha qualquer pretensão a uma excepcional ciência teológica. Como antigo oficial militar, médico cirurgião e clínico geral, batalhador consumado contra as forças da subversão organizada, bem educado e instruído, oriundo de uma família respeitada, ele era indubitavelmente um homem capaz e competente, sério e comumente levado a sério. Seu traço de caráter de todos o mais notável era a humildade: Philip Shelmerdine era o último homem a atrair atenção para si mesmo, a procurar os holofotes, a querer ser diferente, a rebelar-se contra as práticas aceites. Mas nada havia de débil em sua humildade, porque era acompanhava de discernimento perspicaz na detecção da incoerência, e de resoluta integridade no recusá-la.

Vimos no capítulo anterior a conscienciosa recusa inicial do Novus Ordo pelo Pe. Shelmerdine, mas, para uma personalidade como a dele, a mera recusa era insuficiente. Se os argumentos de Patrick Henry Omlor contra a nova forma de consagração eram convincentes, deviam convencer a todos os homens razoáveis e retos. Se, pelo contrário, pudessem ser respondidos, era preciso procurar a resposta sem perda de tempo.

E deixará alguns leitores aflitos saber que o Pe. Shelmerdine não excluiu de maneira alguma a possibilidade de que uma resposta pudesse ser encontrada para as objeções de Omlor. Não foi logo lançando uma campanha pública de denúncia da invalidade da Missa Nova. Ao contrário, agiu de acordo com as regras normais da prudência, apresentando suas objeções com a maior clareza possível ao seu Ordinário, aos seus antigos professores de seminário, aos mais doutos de seus colegas e às mais altas e competentes autoridades que pôde encontrar. Não se acercou deles com a bravata de quem já sabe que tem razão, nem com a obsequiosidade de quem se enxerga como provavelmente errado: ele queria uma discussão de homem para homem na qual a dificuldade fosse encarada de frente e respondida, se o pudesse ser.

Vale a pena nos recordarmos de qual era a dificuldade principal.

A tradicional fórmula de consagração diz, com palavras de Cristo, que o cálice contém “o Meu Sangue…que será derramado por vós e por muitos”. O Novus Ordo em quase todas as suas versões vernáculas diz “por vós e por todos”.

Agora, na realidade teológica, o Sangue de Cristo foi derramado no desejo d’Ele, e em sua suficiência intrínseca, pela salvação de todos; já em sua eficácia, em sua fecundidade objetiva, foi derramado por muitos, mas não todos, visto que nem todos os homens se salvam. Desse modo as duas afirmações —“O Sangue de Cristo foi derramado por muitos” e “O Sangue de Cristo foi derramado por todos”— podem ser ambas consideradas verdadeiras, mas apenas em sentido diferente. Assim também, para empregar um paralelo do dia-a-dia, o jardineiro pode dizer: “Cultivo hortaliças para a família inteira”, referindo-se à sua intenção, ou então pode dizer: “Cultivo hortaliças principalmente para lesmas, caracóis e lagartas-rosca”, referindo-se ao resultado.

No caso da fórmula de consagração, muito embora as duas afirmações possam ser verdadeiras, cada qual no seu sentido distinto, ambas não podem ter sido feitas por Nosso Senhor na Última Ceia. Ou o sentido visado por Nosso Senhor foi “muitos”, porque Ele estava se referindo ao resultado de Sua Paixão, ou então foi “todos”, se Ele estava se referindo à suficiência dela. E, na realidade, tanto os Evangelhos (todos escritos em grego) e São Paulo, como todas as variantes formas litúrgicas algum dia aprovadas pela Igreja, concordam em dizer que Ele usou a palavra “muitos”, pois, como coloca o Catecismo do Concílio de Trento: “Com razão, portanto, não foram usadas as palavras por todos, porquanto neste lugar se falou somente dos frutos da Paixão, e somente para os escolhidos a Paixão d’Ele deu fruto de salvação.”

Inevitavelmente, a tradução errônea “por todos”, usada nas versões vernáculas do Novus Ordo, levou a dúvidas acerca de sua validade. A estas dúvidas, uma espécie de resposta foi dada.

Para justificar seu erro de tradução, o ICEL (o comitê internacional com fins lucrativos encarregado de traduzir os novos textos litúrgicos) explicou que Nosso Senhor teria dito a fórmula original em hebraico ou aramaico, línguas nas quais a palavra traduzida como muitos em latim e em grego na realidade muitas vezes significa todos: “Nem o hebraico nem o aramaico possui [sic] palavra para todos”, asseverou solenemente. “A palavra rabbim ou ‘multidão’, destarte, servia também em sentido inclusivo para: ‘o todo’, muito embora o grego e o latim correspondentes aparentem ter sentido exclusivo, i.e., ‘os muitos’ ao invés de ‘os todos’.” O ICEL citou o acadêmico protestante Joachim Jeremias em respaldo dessa alegação. E, em 1970, o mesmo argumento foi apresentado em Notitiæ, o órgão da Sagrada Congregação para os Sacramentos e o Culto Divino da Igreja Conciliar.

O Dr. Shelmerdine ficou pasmado com a alegação de que nem o hebraico nem o aramaico “possui” palavra capaz de distinguir o conceito de todos do de muitos. Lembrou-se de que como médico servindo aos mais pobres e ignorantes aborígenes tribais no continente africano, usando uma das línguas mais inadequadas do mundo, nunca tinha notado que fossem incapazes de distinguir conceitos tão elementares como muitos e todos. Ele tentou imaginar um caçador da tribo voltando para o acampamento e anunciando a seus companheiros que tinha matado “todos os antílopes” no lago, e seus companheiros partindo de imediato à caça dos outros, já que não foram capazes de entender, pelo relato dele, se tinha sobrado algum ou não tinha. A ideia era impossível de acreditar.

Shelmerdine compôs então um pastiche hilariante, no qual imaginava um diálogo em hebreu entre os irmãos e primos Rothschild em 1875, sobre suas compras de ações do Canal de Suez. “Ah, Jacó”, declarou um deles, “acabo de comprar todos os títulos do Canal de Suez!” Ao que o outro respondeu: “Pois sim, meu caro, e ainda sobraram muitos?”

Por mais que a alegação do ICEL indignasse o seu bom senso, Shelmerdine sabia que um pesquisador sério precisa consultar as autoridades competentes. Com aquela extraordinária energia e determinação de ir a fundo de toda questão importante que o caracterizou a vida inteira, ele agendou uma visita para falar com o Professor de Línguas Semíticas na Universidade de Johannesburgo. O professor, que não era católico, leu detidamente as alegações feitas por Joachim Jeremias e por aqueles que se fiavam neste último, e proferiu o seu veredito: “É tão ridículo que chega a ser absurdo.”

O Pe. Shelmerdine estava agora convencido, sem a menor sombra de dúvida, de que não existia fundamento algum para a justificativa que fora apresentada para a tradução errada. E podia muito bem estar mesmo, porque até mesmo se Nosso Senhor tivesse realmente proferido aquelas palavras em aramaico (e esse é um “se” enorme), não há dúvida de que os três evangelistas que as relatam não hesitaram em vertê-las com a palavra grega para “muitos”, e não com aquela para “todos”. E não há dúvida de que a versão oficial em latim “pro multis” da Igreja necessariamente reflete com exatidão o sentido.

Permanecia a questão: acaso esse erro grosseiro na parte mais sagrada da “Missa Nova” a torna inválida? Muitos que deploraram com veemência a tradução errônea sustentaram que a validade, ao menos, ficava intacta, já que as palavras “Este é o Meu Sangue” são, a seu ver, as únicas essenciais. Mas Mr. Patrick Henry Omlor fizera seu trabalho com esmero demais e exaustivamente demais para essa alegação ter peso. Ela tem contra si o claro testemunho de Sto. Tomás, as rubricas do Missal, a tipografia mesma do Missal, o testemunho dos Padres, o Catecismo do Concílio de Trento (em seu sentido óbvio, não reinterpretado por pedantes trapalhões)(*) e numerosas outras autoridades. A tendência, em anos recentes, de manualistas teológicos menores em contestar a opinião tradicional havia sido, por seu turno, anulada pela ciência e erudição maciças do Pe. Maurice de la Taille na sua obra Mysterium Fidei.

[(*) N. do T. – No original: “(in its obvious sense, unfuddied and unduddied)”, trocadilho com a jocosa expressão “fuddy-duddy” e o nome do autor da mais recente dessas tentativas de reinterpretação: cf. a este respeito a divertida “A philological response to Michael F. Duddy’s ‘Answering the Validity Question: A response to the allegation that the Novus Ordo Missae is invalid’ Article 2. — By a Classical Scholar(Uma resposta filológica ao segundo artigo de Michael F. Duddy da série dele ‘Respondendo à Questão da Validade: Uma réplica à alegação de que o Novus Ordo Missae é inválido’. — Por um Acadêmico em Línguas Clássicas), Sábado de Páscoa de 2007, antigamente em: “sedevacantist.org//newmass/duddy_response.html”.]

O Pe. Shelmerdine estudou os textos, datilografou-os, confiou-os à memória, discutiu-os com todos os que concordassem em ouvir, e finalmente acudiu a Roma.

A atração que traz os estudantes de volta à cidade e à instituição onde fizeram seus estudos é antiga e universal, mas o Pe. Philip Shelmerdine não estava em Roma para satisfazer ao sentimentalismo e recordar os velhos tempos. Estava ali para reunir-se com o arcebispo dom Bugnini nos escritórios da Sagrada Congregação para o Culto Divino, e tinha planejado cuidadosamente como apresentaria o seu caso.

Ele não tinha intenção alguma de agressividade ou de denúncia. Permanecia inteiramente aberto a todo argumento sério que pudesse ser encontrado para defender a catolicidade e a validade da nova consagração vernácula. O Cardeal McCann tinha aprovado a ideia dele de partir para consultar aqueles que estavam mais bem preparados para “resolver suas dúvidas”.

Infelizmente, quando o Pe. Shelmerdine chegou aos escritórios da Congregação responsável por impingir a liturgia neo-protestante à Igreja, seu secretário estava ausente (quiçá numa reunião de loja). Em lugar deste, ele foi convidado a reunir-se com um Monsignore anglófono do alto escalão, à guisa de substituto pelo próprio Bugnini. A história não registra o nome desse luminar da ciência litúrgica, mas, como ele estava ali para defender a tradução “por todos”, vamos chamá-lo pelo nome latinizado Mons. Omnibus. Eis a substância do diálogo que se seguiu.

Pe. Shelmerdine: Estou profundamente transtornado com a tradução generalizada de “pro multis” como “por todos os homens”.

Mons. Omnibus: Eu lhe asseguro que não há nada com que se preocupar. O próprio Santo Padre, Papa Paulo VI, usa livremente essa tradução.

Pe. Shelmerdine: Mas quando o Santo Padre reza Missa em latim, ele diz “pro omnibus”?

Mons. Omnibus: De modo algum. Quando reza Missa em latim, Sua Santidade diz “pro multis”.

Pe. Shelmerdine: E quando celebra Missa em italiano, o que ele diz?

Mons. Omnibus: Diz “per tutti”—“por todos”.

Pe. Shelmerdine: Mas seguramente que há contradição? Ou a consagração afirma que o Precioso Sangue de Nosso Senhor foi derramado por muitos, ou afirma que foi derramado por todos. Não pode significar ambas as coisas.

Mons. Omnibus (caindo ingenuamente na armadilha de presumir que a objeção se referisse à ortodoxia doutrinal): Está entendendo mal, Padre. As duas afirmações podem ser entendidas em sentido perfeitamente ortodoxo. Quando o Santo Padre reza a Missa em latim, tem em vista o significado de que a Paixão foi eficaz em obter a salvação de muitos; já quando diz a Missa em línguas vernáculas, tem em vista o significado de que a Paixão foi suficiente para obter a salvação de todos.

Pe. Shelmerdine: Monsenhor quer dizer que a ortodoxia da nova tradução depende do fato de que há uma mudança radical de significação entre ela e o latim que ela substituiu?

Mons. Omnibus (condescendente): Precisamente, Padre. Aí está a explicação de suas dificuldades.

Pe. Shelmerdine (tirando da sua maleta de documentos uma fotocópia das rubricas do Missal Romano promulgado pelo Papa S. Pio V e lendo em voz alta em latim): “Se alguém…mudar algo na forma da consagração…de maneira que as palavras assim mudadas não signifiquem mais a mesma coisa, ele não consagraria o Sacramento.”

Mons. Omnibus (depois de pausar apenas tempo suficiente para se dar conta de que já tinha concedido que a forma vernácula contém precisamente uma mudança de significado, precisamente aquilo que as rubricas declaram causar invalidade…): Bem, lamento, Padre, mas este é todo o tempo que eu posso dedicar ao senhor…

E o Pe. Philip Shelmerdine foi conduzido sem cerimônia até a porta!

Emergindo do Palazzo delle Congregazione, e não tendo ainda rezado Missa, ele atravessou a Piazza San Pietro até a Basílica de São Pedro e se apresentou na sacristia com o seu celebret. Um jovem coroinha estava prontamente disponível para acolitar para ele e, depois de se ter paramentado, precedeu-o ao altar no qual ia celebrar, onde lhe apresentou um missal de altar do Novus Ordo. O Pe. Shelmerdine deu-lhe uma ordem áspera de levar aquilo dali e buscar “um que preste”, após o que o astuto rapaz retornou prontamente com um missal tridentino e acolitou sua Missa impecavelmente.

De Roma, onde o suplente de Mons. Bugnini lograra o oposto de convencê-lo, o Pe. Shelmerdine pegou o avião para a Inglaterra, para consultar os jesuítas de Farm Street, Londres, e o quadro de professores de teologia do seminário St. John em Wonersh.

Os jesuítas foram hospitaleiros e encantadores, e ofereceram o argumento teológico espantoso de que, como todos eles estavam usando o Novus Ordo, seguramente que não havia problema. No seminário um professor, tendo escutado com atenção as provas da invalidade do Novus Ordo, informou pacientemente ao seu atribulado confrade no sacerdócio que este (Shelmerdine) estava sofrendo de orgulho espiritual. Não sendo do tipo que se deixa distrair por mudança de assunto, Shelmerdine não negou a acusação, mas recordou ao seu interlocutor que, se mudar o significado das palavras de consagração não invalidou a Missa, deve haver algum meio de provar isso independentemente dos defeitos espirituais de quem discute sobre o assunto.

O destacado acadêmico jesuíta Pe. Crehan afirmou para o Pe. Shelmerdine que a história atesta a existência de ritos litúrgicos válidos que não contêm “pro multis”. Mas os exemplos dele vinham da família litúrgica siríaco-jacobita, tal como usada pelos hereges monofisitas e cuja validade nunca foi reconhecida pela Igreja. A melhor coisa que conseguiu encontrar em liturgias católicas era o antigo Sacramentário irlandês, que traz “por muitos e por vós”, o que é meramente mudança de ordem e não de significado. Crehan, além disso, bem que concedesse que o hebraico possuía uma palavra para todos, sustentou que esta era somente um adjetivo e não podia ser usada sozinha, razão pela qual Nosso Senhor viu-se forçado a usar a palavra [hebraica] para muitos. Ele não tinha se dado ao trabalho de perguntar a um falante nativo de siríaco moderno como era que os textos do Evangelho tinham sido traduzidos naquela língua!

Os debates do Pe. Shelmerdine levaram muito tempo, e ele repassou os argumentos de novo e de novo com diversos oponentes, que iam desde os ignorantes até aos quixotescos, mas nenhuma resposta digna foi dada às objeções imortalizadas por Mr. Patrick Omlor e por escritores como o finado Hugh Ross Williamson.

De volta à África do Sul, o Pe. Philip Shelmerdine reportou ao seu ordinário. “Então”, inquiriu o Cardeal McCann paternalmente, “resolveu as suas dúvidas?”

“Sim, Eminência”, veio a resposta. “Não me resta dúvida alguma: eu nunca vou usar o novo rito da Missa.”

“Nesse caso”, replicou McCann, “não pode haver mais nenhum emprego para o senhor na Igreja da África do Sul.”

“Pois muito bem, Eminência, eu aceito o desafio.”

 

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CONTINUA EM:
Capítulo 4: Um Padre Contra os Bispos

 

O PADRE PHILIP SHELMERDINE 1909–1987
J. S. DALY
(2008)

CAPÍTULO 1: O PROTESTANTISMO, A PRISÃO E PADRE
CAPÍTULO 2: ENFIM, SACERDOTE
CAPÍTULO 3: DESAFIANDO BUGNINI EM SEU COVIL
CAPÍTULO 4: UM PADRE CONTRA OS BISPOS
CAPÍTULO 5: A QUESTÃO DO PAPA
CAPÍTULO 6: OS ÚLTIMOS ANOS

 

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J. S. DALY, O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987. Capítulo 3: Desafiando Bugnini em Seu Covil, 2008; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, ag. 2016, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2Ki

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Luzeiros da Igreja em língua portuguesa – XCI

21 de agosto de 2016

 

O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987

(2008)
J. S. Daly

 


 

Capítulo 4: Um Padre contra os Bispos

 

Deixamos o Pe. Philip Shelmerdine no começo da década de setenta, certo de que nunca poderia em consciência rezar a Missa do Novus Ordo e informado por seu Ordinário de que não poderia mais haver emprego para ele na Igreja da África do Sul enquanto ele não o fizesse. Ele não estava sob censura alguma, não tinha sido privado de suas faculdades para ouvir confissões, o Cardeal McCann não tinha qualquer objeção a que ele continuasse rezando Missa sozinho (ele já tinha indulto para rezar Missa sem acólito), mas ele estava “desempregado”. O que ele havia de fazer?

Em retrospectiva, a resposta vem espontaneamente de que ele devia se colocar à disposição do movimento católico tradicional na África do Sul, oferecendo a Missa, ensinando a verdadeira doutrina e denunciando os bispos e a falsa missa e religião do Vaticano II. O que poderia ser mais simples? Deveria ser um estridente despertar para a realidade saber que nem sequer passou pela cabeça do Pe. Shelmerdine fazer qualquer coisa do tipo. Não existia movimento católico tradicional nenhum. Nem havia qualquer foro no qual teria sido possível “pôr a boca no trombone”. Tampouco estava claro, em absoluto, o que dizer caso a oportunidade tivesse se apresentado. Uma bomba nuclear tinha explodido, mas as ondas de choque ainda reverberavam. Era cedo demais para uma séria avaliação dos danos. Além disso, o Pe. Shelmerdine estava vivamente ciente da dimensão moral da crise: pelo mundo todo, a principal ofensiva parecia ser contra a castidade e a família. Muitos bispos e padres conservadores sobreviventes, que tinham adotado o Novus Ordo de boa fé, naquela altura ainda defendiam ativamente os bons costumes. Inevitavelmente se hesita em deflagrar guerra total em uma nova frente, com a perspectiva de perder quase todos os aliados que se têm em outra.

O que Shelmerdine de fato fez foi sair e arrumar um emprego! Armado de indulto para praticar medicina e usar trajes leigos ao fazê-lo, ele conseguiu trabalho como médico-assistente nas minas de diamante da África do Sul. Os parentes distantes dos judeus que haviam lhe recusado um futuro como cirurgião de Londres ficaram satisfeitíssimos de tê-lo a seu serviço na África do Sul. Assim, sua existência cotidiana consistia de viver em hotéis e ficar de prontidão a todo momento, noite ou dia, para vestir seu jaleco de médico e o capacete de segurança e descer adentrando aquela parte mais escura da mais escura África que fica no subterrâneo e de onde os metais mais preciosos do homem são escavados em abundância.

Agindo assim, ele combateu eficazmente a baixa tentativa de McCann de dobrá-lo pela fome. Mas claro que o Pe. Philip Shelmerdine era sempre, acima de tudo o mais, um sacerdote. Toda manhã, bem cedo e em completa solidão, ele rezava Missa, padecendo o anseio frustrado de exercer seu ministério sacerdotal em benefício das almas. Ele contatou congregações missionárias, como a Sociedade do Verbo Divino, para lhes oferecer seus serviços. Apesar da sua insistência em usar somente a Missa tridentina, mostraram algum interesse, especialmente em vista de suas qualificações médicas. O finado Pe. Harold Rigney S.V.D., ex-prisioneiro pela fé e autor de Quatro Anos no Inferno Vermelho [trad. port. Luciano Miral, Ed. Caravela, 1956, 123 págs. – ndt], discutiu a possibilidade de empregá-lo na Índia, em Gana ou na Nova Guiné, mas afinal os bispos locais acabaram bloqueando toda tentativa assim. O arcebispo dom Noser, de Madang na Nova Guiné, assegurou a Shelmerdine que “o nosso povo já não ficaria contente com só ter Missa em latim”, e o projeto teve de ser abandonado. Se bem que Philip Shelmerdine com certeza não teria aceito usar o Novus Ordo em latim, é interessante notar que a ideia não foi em momento algum sugerida a ele.

Em meados dos anos 70 as linhas divisórias vincadas entre os diversos grupos conservadores e tradicionais iam ficando mais claras. Brotavam periódicos tradicionalistas. De volta à sua Inglaterra natal por algumas poucas semanas em 1975, o Pe. Shelmerdine colaborou com outros padres tradicionais, inclusive com a FSSPX, ainda em estado larval. Mas, antes de pregar ou de ouvir confissões, ele contatava diligentemente os ofícios de chancelaria diocesanos, mostrando prova de ser um sacerdote em situação regular na África do Sul e obtendo faculdades dos bispos do Novus Ordo. Embora bem ciente de que a Igreja estava em uma crise grave, ele ainda assim teria considerado sacrílega e inválida toda tentativa de dar absolvição sem uma fonte de jurisdição demonstrável.

Sem demora a sua colaboração com a FSSPX levou a dificuldades: ao rezar Missa para um pequeno grupo de leigos numa garagem, ele não se sentiu capaz de seguir o exemplo do padre da FSSPX que normalmente deixava-lhes o Santíssimo nestas condições inseguras e improvisadas. Isso foi considerado ofensivo e algum encrenqueiro conseguiu descobrir que o Pe. Shelmerdine tinha sido aprisionado durante a guerra e pôr em circulação rumores de que ele era um traidor e devia ser evitado. A FSSPX inglesa não tinha mais nenhum interesse nele, mas em 1978 recebeu uma solicitação direta do Pe. Hector Bolduc para colaborar com a FSSPX nos EUA. Apesar da cândida ênfase de Bolduc na segurança financeira oferecida pela Fraternidade, ou talvez por causa dela, Shelmerdine não aceitou o convite.

No fim da década de 1970 ele se mudou da diocese de sua incardinação. Residia agora na diocese de Lidemburgo-Witbank (Transvaal Oriental), onde tinha comprado uma chacarazinha e morava sozinho. Certo dia uma gangue de brutamontes tribais invadiu e o amarrou, enquanto vasculhava a casa em busca de objetos valiosos. Ao acaso abriram um guarda-roupa onde encontraram um conjunto de vestes sacerdotais, alfaias sagradas e outros aparatos para celebrar Missa. Em vez de roubá-los, como se teria podido recear, ficaram aturdidos ao se darem conta de que sua vítima não era um homem comum, mas um bruxo que tinha poder de exercer magia poderosa. Entraram em pânico e fugiram de mãos vazias. É duvidoso se teriam sentido o mesmo assombro caso tivessem topado com os ornamentos de um presidente-da-assembleia do Novus Ordo.

Finalmente, em 1980, alguns outros sul-africanos despertando para a necessidade do retorno à Missa tradicional se quisessem salvaguardar sua fé católica, entraram em contato com o Pe. Shelmerdine. Inicialmente um ou dois indivíduos privados visitaram-no para assistir Missa. Em seguida, ele foi formalmente requisitado a rezar Missa para grupos, primeiro em White River, e depois a visitar regularmente Durban, Joanesburgo, Pretória [hoje Tshwane – ndt] e Cidade do Cabo, para celebrar Missa em público e atender às necessidades espirituais dos fiéis abandonados dessas cidades. (Ele recebera notificação formal, como sacerdote em situação regular da diocese da Cidade do Cabo, de que suas faculdades para confissão agora eram válidas para todas as dioceses da República.)

Embora contentíssimo com a requisição e mais do que disposto a consentir, Shelmerdine considerou que o procedimento óbvio era escrever e requisitar a autorização dos ordinários locais para operar nas dioceses deles. De nossa atual perspectiva, isso pode parecer exasperantemente dócil a homens que estavam empenhados em destruir a fé. Mas não se pode perder de vista que a ideia mesma de que esses homens tivessem cessado de ser membros legítimos da hierarquia nunca tinha ocorrido a Philip Shelmerdine e que ele jamais tinha ouvido menção a ela por quem quer que seja. A atitude padrão do clero católico é de obediência à autoridade legítima, ainda que essa autoridade se comporte deploravelmente. A autorização que ele requisitou foi recusada, e somente após consultar na Inglaterra um tradicionalista perito em direito canônico é que o Pe. Philip Shelmerdine foi assegurado de que podia em boa consciência rezar Missa em público, e ele começou a assim fazer. Os resultados foram espetaculares. Nos centros de Missa fundados nas principais cidades da África do Sul ele se viu, dentro em pouco, com um total de uns trezentos fiéis. Os dias da semana o encontravam exercendo a medicina, enquanto aos domingos ele viajava pelos ares, de cidade em cidade, como médico das almas.

O ordinário local de sua residência, o bispo dom Reiterer, foi ligeiro em atuar. Após uma monição canônica, prosseguiu em declarar o Pe. Shelmerdine suspenso. Já que não é, de fato, um delito que um sacerdote em situação regular reze a Missa em público, Reiterer tinha que achar um delito canônico para servir de motivo para a sua censura. Dando mostras de grandes poderes de imaginação, apelou ao Cânon 2378 (que pune os clérigos que atentam contra os ritos e cerimônias litúrgicas da Igreja) e mesmo ao Cânon 2315 (referente a suspeita de heresia: a pretensa heresia sendo a dúvida de Shelmerdine acerca da Presença Real em missas celebradas conforme o Novus Ordo), bem como ao Cânon 2331, atinente à desobediência a ordens legítimas do seu ordinário. Reiterer também informou obsequiosamente a Shelmerdine que essa censura vinculava-o não somente na diocese de Lidemburgo-Witbank, como também em todos os demais lugares. É difícil de conter o riso diante de tão flagrante hipocrisia ao reler estas missivas severas dirigidas por um prelado a serviço do século ao único sacerdote plenamente fiel na sua diocese, enquanto ao mesmo tempo tolerava dos outros padres uma grande variedade de atentados contra a fé, a moral e a lei litúrgica.

Shelmerdine novamente tomou conselho de um canonista, o qual lhe assegurou que, visto haver certeza notória de que ele não era culpado por nenhum dos delitos de que era acusado, a censura era inválida em ambos os fora [i.e. tanto no foro externo quanto no foro interno – ndt]. Shelmerdine continuou a rezar Missa publicamente nos lares e nos salões alugados que tinham se tornado os seus centros de Missa.

Então, no começo da década de 1980, o Pe. Shelmerdine teve a alegria de ver dois jovens padres diocesanos se acercarem dele com vistas a retornar à Missa tradicional. Isso levantou um novo problema, pois ambos tinham sido ordenados no novo rito de ordenação.

Há quatro razões distintas pelas quais alguns católicos questionaram a validade de Ordens conferidas segundo o rito novo:

1. Quase todos os motivos com base nos quais o Papa Leão XIII condenou como inválidas as Ordens anglicanas (Apostolicæ Curæ, 1896) se aplicam ao rito de ordenação de 1968 da Igreja Conciliar. E aquilo que definitivamente teria salvaguardado a validade apesar disso —a perfeita fidelidade à forma essencial designada pelo Papa Pio XII (Sacramentum Ordinis, 1947)—, deliberadamente se fez com que parecesse presente sem realmente estar, pois uma palavrinha só (em latim “ut”, que significa “para que”) foi suprimida. Quaisquer que sejam as opiniões individuais, é impossível de provar que a supressão do “ut” não é mudança substancial, dado que suprime a conexão causal entre as duas metades da frase operativa. Ademais, não obstante ocasionais alegações em contrário, não existe precedente histórico algum para a forma sem “ut” tal como está no rito de 1968. (Ver, do presente escritor, A Validade do Novo Rito de Ordenação de 1968.)

2. As traduções vernáculas do rito novo são ainda mais distantes da forma essencial de Pio XII do que o latim de 1968. É perfeitamente possível, claro está, que existam formas de ordenação válidas que difiram daquela designada pelo Papa Pio XII. Mas elas teriam de especificar inequivocamente a substância do sacramento e não está claro de maneira alguma que o novo rito faça isso sequer em latim, quanto menos nas traduções feitas com atropelo. O simples fato é que a Igreja Conciliar não é digna de confiança nem para sã doutrina nem para sacramentos válidos.

3. Ainda que o novo rito de ordenação fosse em si mesmo inquestionavelmente válido, é notoriamente comum que os ministros da Igreja Conciliar se permitam a si próprios considerável liberdade na execução de seus ritos. Algum ponto essencial pode ter sido omitido.

4. O próprio bispo ordenante pode nunca ter sido validamente consagrado, porque o novo rito de consagração episcopal é ainda mais difícil de defender que o de ordenação sacerdotal. É por isso que o finado Mr. Michael Davies, no seu livro The Order of Melchisedech, argumenta —tenuemente— a favor da validade dos novos ritos de ordenação de sacerdotes e de diáconos, mas não diz palavra sobre o novo rito de consagração episcopal.

Foi a primeira das considerações acima que, na época, pesou para Shelmerdine. Explicando cuidadosamente o problema aos dois jovens padres, aconselhou-os que viajassem urgentemente para Écône, na Suíça, e se deixassem reordenar pelo arcebispo Dom Lefebvre na primeira oportunidade.

Naturalmente, o Pe. Shelmerdine contava com a cooperação de Dom Lefebvre, mas o arcebispo não julgou a coisa do mesmo jeito. O próprio Lefebvre tinha usado o novo rito de ordenação com o Pe. Cottard, e vários padres na Fraternidade dele haviam sido ordenados no rito novo e jamais reordenados. Além disso, como Michael Davies nos informa, Lefebvre inicialmente não tinha detectado a omissão da palavra “ut” e tomara assim algumas graves decisões (difíceis de reverter) enquanto movido por uma avaliação equivocada.

No caso, Lefebvre perguntou a cada um dos dois sul-africanos: “Você se sente ordenado?” Richard Bedingfeld respondeu negativamente e foi reordenado condicionalmente em 29 de junho de 1982, mas seu colega “se sentia ordenado”, sim, e foi por isso mandado de volta para a África do Sul sem reordenação.

Agora, o Pe. Shelmerdine não era o que se entende por um grande intelectual, nem tinha qualquer pretensão de ser um teólogo insigne. De fato, a vida dele teria sido bastante ordinária e sem sobressaltos, não fosse por sua clareza de pensamento e sua integridade obstinada e inabalável face ao que conseguia enxergar como verdadeiro ou falso. Ele acabava de chegar a mais um dos pontos de viragem na sua vida, para os quais esta integridade o conduzia. Vimos já sua recusa a tornar-se franco-maçom, sua recusa a continuar protestante, sua recusa a dar seu aval ao casus belli original da Segunda Guerra Mundial e sua recusa da Missa Nova. Agora a consciência dele lhe impõe, para grande consternação sua, o dever de dissentir publicamente do arcebispo Dom Lefebvre. Pois ele podia ver que, quaisquer que fossem seus outros méritos, o juízo de Lefebvre era indefensável neste caso, e ele não tinha escolha além de dizer isso, em ordem a ajudar os fiéis a formarem a consciência ao decidirem de quem receberiam os sacramentos.

O Pe. Shelmerdine escreveu um breve artigo no qual narrava os fatos da tentativa abortiva de reordenação e frisava que a validade ou invalidade de um sacramento simplesmente não tem como ser sentida, mas depende de critérios objetivos. Propôs a hipótese de dois gêmeos idênticos, ordenados no mesmo dia pelo mesmo bispo, um dos quais “se sentia” ordenado e o outro não, e indagou se o arcebispo realmente consideraria correto reordenar um e não o outro. Fez a confidência marota de que ele próprio nem sequer “se sentia” batizado, e imaginou se Dom Lefebvre consideraria isso uma boa razão para rebatizá-lo. Indicou que, apesar de “ut” ser uma palavra pequena, a presença ou ausência de “para que” pode fazer uma enorme diferença numa frase. O exemplo apresentado por ele foi que a afirmação “Eu tenho uma arma… você pode morrer” não constitui ameaça enquanto as palavras “para que” não forem inseridas entre as duas orações.

O arcebispo Dom Lefebvre a vida toda foi resoluto na fidelidade às doutrinas ortodoxas que aprendera no Séminaire Pontifical Français em Roma, mas depois da morte de seu consultor Pe. Berto, em 1968, o juízo do arcebispo sobre os novos problemas apresentados pela crise foi muitas vezes fraco e nebuloso nas questões abstratas ou teológicas, ao passo que permanecia claro em questões práticas. Aqui, sobre o grave problema da validade sacramental, faltou ao arcebispo a clareza de pensamento de Shelmerdine. Ele deixou à sua Fraternidade um legado perigoso, que leva à contínua incongruência pela qual ela reconfirma os confirmados no rito novo, mas, no caso das ordenações, alegadamente “avalia cada caso segundo seus próprios méritos”: ato este bem impossível na ausência de princípios claros, aceites e certamente verdadeiros para, em confronto com eles, fazer tais avaliações. A triste verdade é que a Fraternidade até hoje “avalia cada caso”, não segundo princípios que sejam de todos aceites (a clivagem entre o Bispo Tissier de Mallerais e o Bispo Fellay sobre esta questão é notória), mas com base em sentimentos, na vantagem e em fatores subjetivos.

O Pe. Shelmerdine, é claro, observou à letra as exigências de cortesia e respeito devidos a um prelado valoroso. Não condenou de modo algum o arcebispo nem atacou sua Fraternidade. Respeitosamente exprimiu discordância sobre uma grave questão teológica, e explicou as razões de sua discordância em termos tão lúcidos, que a poucos leitores poderia restar qualquer dúvida de que ele estava certo. O caso poderia ter sido esquecido, não fosse por alguém que, em algum lugar, resolveu que Shelmerdine tinha de pagar pela sua independência de juízo.

Pouquíssimo tempo depois, a FSSPX anunciou que ia instalar centros de Missa na África do Sul. Um padre jovem e dinâmico foi enviado para falar em público, discursando em reuniões de católicos tradicionais e outras partes interessadas. Explicou-lhes que até que enfim a Missa tradicional ia retornar à África do Sul, como se a República tivesse sido até aquela altura nada além de um vasto deserto do Novus Ordo sem um único oásis tridentino. Finalmente, em um grande congresso, um leigo ergueu-se para perguntar hesitantemente por que é que não se tinha feito menção alguma ao Pe. Shelmerdine, que já rezava a Missa tradicional regularmente nas principais cidades da África do Sul. A resposta dada, com acentos melífluos, pelo representante da FSSPX foi que o Pe. Shelmerdine era um admirável padre velho que tinha prestado bons serviços, mas que, em lugar de ir às Missas dele, seria melhor ficar em casa rezando o rosário! O nome do representante era Pe. Richard Williamson. Ele subiu desde ali para coisas mais altas. Enquanto o Pe. Shelmerdine observava a assistência às suas Missas despencar por todos os lados, mal deixando-o com um sexto do efetivo anterior, ele tinha a consolação da perfeita e bem justificada tranquilidade de consciência. Só nos resta a esperança de que aqueles responsáveis tenham o mesmo conforto.

 

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CONTINUA EM:
Capítulo 5: A Questão do Papa

 

O PADRE PHILIP SHELMERDINE 1909–1987
J. S. DALY
(2008)

CAPÍTULO 1: O PROTESTANTISMO, A PRISÃO E PADRE
CAPÍTULO 2: ENFIM, SACERDOTE
CAPÍTULO 3: DESAFIANDO BUGNINI EM SEU COVIL
CAPÍTULO 4: UM PADRE CONTRA OS BISPOS
CAPÍTULO 5: A QUESTÃO DO PAPA
CAPÍTULO 6: OS ÚLTIMOS ANOS

 

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J. S. DALY, O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987. Capítulo 4: Um Padre Contra os Bispos, 2008; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, ag. 2016, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2Ke

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Luzeiros da Igreja em língua portuguesa – XCII

21 de agosto de 2016

 

O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987

(2008)
J. S. Daly

 


 

Capítulo 5: A Questão do Papa

 

Como temos observado, Philip Shelmerdine não era um homem extraordinário nem um sacerdote extraordinário, salvo sob um aspecto: sua absoluta integridade. Nós o vimos manifestar esse traço de seu caráter já bem moço, recusando a vontade de seu guardião de que se tornasse um franco-maçom; quando jovem adulto, escolhendo se tornar católico; como cidadão, investigando e combatendo a subversão judaico-maçônica a ponto de ser preso injustamente; como sacerdote, recusando o Novus Ordo e recusando o novo rito de ordenação. Agora vamos ver como um padre de integridade reage quando confrontado com “a questão do papa”.

Até 1983, o Padre Shelmerdine muito literalmente nunca tinha ouvido a mais leve sugestão de que Paulo VI ou os Joões-Paulos pudessem não ter sido papas válidos, nem jamais a ideia lhe passara pela cabeça espontaneamente. É um fato curioso que a maioria dos escritos católicos tradicionais naqueles dias, particularmente em língua inglesa, quase nunca advertia para as dificuldades teológicas suscitadas por simultaneamente recusar o Vaticano II e os novos ritos que dele emergiram, enquanto se reconhecia ainda assim, como papas legítimos, àqueles que os impuseram.

Recordemo-nos da dificuldade mais óbvia implicada pela posição do Padre Shelmerdine. Ela consiste nisto que o Padre Shelmerdine considerava o Novus Ordo prejudicial à fé, nocivo à reverência, daninho para as almas e inválido. Mas, se Paulo VI tivesse sido verdadeiro papa, isso seria simplesmente impossível. Nas suas celebradas Instituições Litúrgicas (tom. 2, pág. 10, ed. 1878), Dom Guéranger escreve que se fosse admissível contestar leis litúrgicas, “…seguir-se-ia que a Igreja errara numa disciplina geral, o que é herético.” Na Quo Graviora (1833), o Papa Gregório XVI pergunta retoricamente: “Poderia a Igreja, que é a coluna e o fundamento da verdade [1 Tim. 3,15] e manifestamente recebe sem interrupção do Espírito Santo o ensinamento de toda a verdade, ordenar, conceder ou permitir o que trouxesse dano às almas e desprezo ou prejuízo a um sacramento instituído por Cristo?” Todos os teólogos estão de acordo que o Concílio de Trento e a Auctorem Fidei do Papa Pio VI ensinam a infalibilidade das disposições litúrgicas da Igreja, no sentido de que estas, mesmo quando meramente aprovadas e não obrigatórias, não têm como ser infiéis à sã doutrina ou à missão santificadora da Igreja.

Donde se segue que havia uma incompatibilidade lógica no persistente reconhecimento de Paulo VI por Shelmerdine, e de João Paulo II em seguida, e a sua rejeição do Novus Ordo. Mas ele não tinha ainda advertido para essa incompatibilidade.

Foi em fins de 1983 que um estranho, em visita a um de seus centros de Missa, mostrou-lhe fotografias que alegadamente mostravam que Paulo VI fora substituído por um impostor. Fazendo uso de sua formação médica, Shelmerdine examinou as fotos com o maior cuidado e concluiu que os indícios que lhe tinham sido mostrados não provavam nada do tipo, e que as fotografias dos “dois Paulos VI” eram indubitavelmente do mesmo homem. Mas um germe de dúvida fora semeado na cabeça dele ainda assim: seria João Paulo II verdadeiramente o Vigário de Cristo?

Poucos meses depois, um de seus fiéis africânderes habituais emprestou-lhe um texto fotocopiado, de um artigo de Mr. N. M. Gwynne, da Britons Catholic Library [Biblioteca Católica Bretã], que alegava constituir prova teológica da vacância da Santa Sé. Shelmerdine devorou-o com interesse. Os argumentos que continha não bastaram para convencê-lo, mas eram suficientemente persuasivos para constituir uma dúvida positiva que ele se sentiu no dever de solucionar. Não conseguiria descansar enquanto não tivesse explorado por completo a alegação de que a crise na Igreja se explicava pela ilegitimidade, por heresia pública, dos mais recentes reivindicadores do papado.

Investigando descobriu que, além do Sr. Gwynne, a posição sedevacantista era defendida também pelo Padre Oswald Baker, de Downham Market, com quem ele já trocara correspondência intermitente, e tanto Gwynne quanto Baker moravam na Inglaterra. Bem que já com 75 anos de idade, Philip Shelmerdine reagiu exatamente como fizera quando, ainda jovem, percebeu que precisava descobrir a verdade sobre a Igreja Católica, ou quando, padre ordenado havia poucos anos, saíra ao encontro do arcebispo d. Bugnini a fim de descobrir se tinha resposta para as objeções ao Novus Ordo Missæ. Ele partiu em visita aos que estavam mais bem posicionados para com eles discutir a questão, e, no caso, isso significava pegar um avião até a Inglaterra.

Sua reunião com o Padre Baker não lhe trouxe novas luzes sobre a questão da vacância da Santa Sé, e o Padre Baker complicou o projeto de investigação do Padre Shelmerdine ao desaconselhá-lo a visitar a Britons Catholic Library, então dirigida por Mr. Gwynne com a assistência do presente escritor.

O Padre Baker tinha tido boas razões para o conselho que deu, mas, após reflexão, Shelmerdine decidiu não o seguir. Só que ele não tinha nenhum endereço de contato da Britons Catholic Library e ficou reduzido a telefonar a esmo, percorrendo a lista telefônica de Londres na esperança de cair no N.M. Gwynne certo; uma tarefa complicada pelo fato de que Gwynne usava o seu segundo nome cristão, Martin, para assinar seus escritos, mas as suas duas iniciais, N.M., na lista telefônica. E, quando ele finalmente ligou para o endereço certo, o telefone foi atendido por uma diarista com um grave distúrbio da fala, e, de todo o modo, o Sr. Gwynne calhava de estar fora do país, na ocasião. Um investigador menos tenaz certamente teria desistido, mas, na procura de uma verdade que acreditava ter de alcançar, o Padre Philip Shelmerdine não era homem de desistir facilmente. Afinal conseguiu o número telefônico do escritório da Britons Catholic Library e, ao discar, se viu falando com o presente escritor, então (era primavera de 1984) com 21 anos de idade.

Assim que falamos ao telefone, o Padre Shelmerdine veio direto para os nossos escritórios na Kensington Church Street e conversamos não somente de sedevacantismo, mas também de livros católicos e da ação das forças organizadas de subversão. Shelmerdine ficou bem contente, e reconfortado, em descobrir que livros escritos por seus velhos amigos Almirante Domvile, Capitão Ramsay, Padre Denis Fahey e outros preenchiam nossas prateleiras. Infelizmente, ele já não tinha mais todo o tempo que teria desejado, já que precisava pegar um trem para ir rezar Missa para uma velha amiga, católica tradicional, no sudoeste da Inglaterra, a Srta. Restieaux, parente do então bispo de Plymouth. Assim, eu o muni de todos os documentos que consegui encontrar expondo os argumentos de prova da vacância da Santa Sé: cópias da bula do Papa Paulo IV Cum Ex Apostolatus, que declara nula a eleição de um herege à Santa Sé independentemente da quantidade ou do escalão dos que viessem a malograr em reconhecer a realidade; o estudo feito por São Roberto Bellarmino do axioma de que um papa herético está deposto; artigos sobre o Cânon 188§4, que consagra o princípio de que um herege público, ainda que não oficialmente condenado, renuncia ipso facto a todos os ofícios na Igreja; a explicação do Cardeal de Lugo de que a Igreja nem sempre exige na prática a prévia admoestação do malfeitor como condição para que ele seja herege; comparações das doutrinas do Vaticano II com o prévio ensinamento católico, e muito mais de que não consigo me lembrar.

O Padre Philip Shelmerdine acomodou-se num vagão ferroviário para viajar de Londres para o West Country [nome informal para o sudoeste da Inglaterra – ndt] e sentou-se para ler todos aqueles documentos. O efeito deles foi rápido. Tão logo chegou à casa de sua anfitriã, antes de começar a Missa, disse a ela: “Miss Restieaux, penso que sou obrigado em consciência a lhe dizer que, pela primeira vez na minha vida sacerdotal (salvo entre a morte de um papa e a eleição do seguinte), não vou incluir o nome de nenhum papa reinante no Cânon da minha Missa.” A Srta. Restieaux respondeu que vinha lendo ultimamente os escritos do Padre Noël Barbara e tinha chegado à mesma conclusão.

 

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CONTINUA EM:
Capítulo 6 (final): Os Últimos Anos

 

O PADRE PHILIP SHELMERDINE 1909–1987
J. S. DALY
(2008)

CAPÍTULO 1: O PROTESTANTISMO, A PRISÃO E PADRE
CAPÍTULO 2: ENFIM, SACERDOTE
CAPÍTULO 3: DESAFIANDO BUGNINI EM SEU COVIL
CAPÍTULO 4: UM PADRE CONTRA OS BISPOS
CAPÍTULO 5: A QUESTÃO DO PAPA
CAPÍTULO 6: OS ÚLTIMOS ANOS

 

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J. S. DALY, O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987. Capítulo 5: A Questão do Papa, 2008; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, ag. 2016, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2K0

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Luzeiros da Igreja em língua portuguesa – XCIII

21 de agosto de 2016

 

O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987

(2008)
J. S. Daly

 


 

Capítulo 6: os Últimos Anos

 

Como vimos, o Padre Philip Shelmerdine concluiu, em 1984, que João Paulo II não era um verdadeiro papa. Seria muito satisfatório de relatar que a adoção do sedevacantismo pelo Padre Shelmerdine trouxe-o ao fim satisfatório de sua longa viagem de descoberta, e que os três anos de vida que lhe restavam, ele os consagrou a defender a verdadeira explicação da crise presente e a exercer um ministério pacífico, fecundo e de grande irradiação, mas isso, como veremos, seria incompleto e enganoso.

Em outubro-novembro de 1984, o Padre Shelmerdine deu a volta ao mundo em viagem para levar os sacramentos a sedevacantistas que não tinham nenhuma outra fonte a que sua consciência lhes permitisse acercar-se. Parou na Austrália (ficando uma semana em Sydney), nos Estados Unidos, onde, no espaço de poucos dias, rezou Missa na Califórnia, em Indiana, no Kansas, em Minnesota, Michigan e Nova York, com breve escala em Toronto, no Canadá, antes de uma parada de alguns dias no Reino Unido, junto do grupo associado à Britons Catholic Library, retornando então à África do Sul. De volta ao lar, suas novas convicções repercutiram mal com a maioria do seu já minguante grupo de fiéis, e ele logo ficou reduzido a apenas quatro pessoas que assistiam à Missa que celebrava.

Embora aos 75 anos de idade, ele continuava operando como médico, no Brewelskloof Hospital. Descontente com o estado moral de sua profissão e começando a duvidar da validade de seu indulto de 1966 para exercer a medicina, ele agora se aposentava da prática médica.

É preciso entender que, ao entrar em contato com o pequeno grupo associado à Britons Catholic Library, do qual o presente escritor era membro, o Padre Shelmerdine não apenas chegou à convicção sedevacantista. Entrou numa relação momentosa, da qual certamente não previu todas as consequências na época. Isto devo narrar agora, e o faço como testemunha ocular que, entretanto, hoje tem fortes reservas quanto a muitos aspectos da minha atuação naquele período.

Ao rejeitar João Paulo II, Shelmerdine não fez, de imediato, quaisquer outras mudanças na sua vida, no seu apostolado ou nas convicções que tinha sobre a crise na Igreja, porque não lhe ocorrera que houvesse alguma razão para o fazer. Mas ele não ficaria muito tempo na sua quiescência. Pois não tinha encontrado somente o sedevacantismo: aqueles de nós que o convencêramos do sedevacantismo estávamos determinados a convencê-lo também de muitas outras coisas além disso, e nos pusemos a assim fazer. A probabilidade de que isso fosse acontecer tinha, sem dúvida, muito a ver com o conselho do Padre Baker, de que ele não devia visitar a Britons Catholic Library.

Antes de prosseguir, preciso tentar transmitir ao leitor alguma impressão do meio sedevacantista que o Padre Shelmerdine encontrara sob a forma da Britons Catholic Library e seus associados, que estavam tão ansiosos para conquistá-lo não somente para o sedevacantismo, mas também para a sua própria versão particular do sedevacantismo e para mil outras opiniões atinentes a assuntos religiosos e seculares. Mr. Martin Gwynne, com sua editora e livraria Biblioteca Católica Bretã [Britons Catholic library publishing and bookselling business] e sua equipe de associados, era o fundador desse milieu ou movimento, e eu próprio estava estreitamente envolvido. Mas se bem que eu certamente conheço os fatos, não tenho certeza da minha capacidade de passar uma impressão completamente exata de um universo que, se descrito com exatidão, mal pareceria verossímil.

Em vez de esquivar de todo a questão, proponho apresentar uma simples lista das convicções que a Britons Catholic Library acreditava verdadeiras, importantes e demonstráveis. Essa lista ao menos dará ao leitor o espírito característico do pequeno grupo sediado em Londres com que o Padre Shelmerdine tinha topado.

Por exemplo, estávamos convictos de que a profissão médica era uma instituição que existia para o fim expresso de propagar doença e o fazia com sucesso. Vacinações, fluoretação, quimioterapia, radioterapia, quase todas as cirurgias e as obturações de mercúrio eram más; eram-no igualmente a homeopatia e a radiestesia. Comida orgânica era boa, e mesmo obrigatória, contanto que não fosse também biodinâmica. A Nova Era era , mas a dieta de tipo Nova Era (vegetariana, sem sal, sem açúcar, de baixas proteínas, comida crua, alimento integral, sem álcool, pouquíssima manteiga) era boa, e sob quase todos os aspectos obrigatória, mas se você passasse mal apesar (ou por causa) de segui-la, podia adicionar enemas, jejum, medicamentos fitoterápicos e quantidades prodigiosas de extratos de vegetais. Métodos tais eram capazes de curar todas as doenças inclusive câncer. Mas não conseguiam curar esgotamentos nervosos nem doença mental, porque esses fenômenos eram atos mortalmente pecaminosos que não pediam cura, mas arrependimento.

Parto em domicílio e ensino doméstico eram bons ou obrigatórios. De fato, o que quer que fosse bom acabava normalmente sendo obrigatório também.

As obras de Shakespeare tinham sido escritas por Bacon e eram más. De fato, quase todos os escritores de renome eram maus, incluindo até mesmo autores católicos respeitados tais como Tomás de Kempis e o Padre Faber. Galileu, Newton e Einstein estavam todos errados (e provavelmente eram conspiradores conscientes), tal como a maioria dos cientistas. Pasteur era mau, não porque suas descobertas fossem falsas, mas porque não eram dele. A energia e as bombas nucleares eram uma fraude (a destruição de Hiroshima, cidade de madeira, não atestava nenhuma propriedade especial nas bombas que a incendiaram). Quase todos os grandes acontecimentos da história do mundo eram obra de uma sociedade secreta maléfica, fundada por Caim e transmitida através do dilúvio de Noé por Cam; seita que estava na origem da francomaçonaria e de todas as outras forças organizadas de subversão. A pertença a essas diabólicas sociedades secretas incluía praticamente todos os políticos e todos os eclesiásticos, designadamente o arcebispo Dom Lefebvre, que acreditávamos planejava sua atuação em concerto com Paulo VI (outro membro). Praticamente todas as guerras eram organizadas por essa conspiração para os seus próprios fins. Não tinha havido “holocausto” algum na Segunda Guerra Mundial. Não houvera pousos na Lua.

A televisão era , e na verdade era mortalmente pecaminoso assistir a ela de todo jeito, visto que até mesmo programas sem qualquer conteúdo flagrantemente mau transmitiam mensagens subliminares corruptoras. A música clássica também era , assim como (por razões de que não me recordo) o cálculo integral e a contabilidade de partidas dobradas.

O mundo foi criado em seis dias, quatro mil anos antes da Encarnação, e o reinado do Anticristo ocorreria dois mil anos depois dela, de modo que a história do mundo consistiria de seis períodos de mil anos, a espelhar os seis dias da Criação. Assim, o Anticristo apareceria no tempo para começar o seu reinado global em 1997, no mais tardar (dando tempo para 3½ anos antes do fim do ano 2000), e, dado que essas datas eram iminentes, era sábio preparar-se mediante autossuficiência.

Crianças deviam ser criadas com uso generoso de punição corpórea. De fato, deixar de administrar castigo condigno em mesmo uma única ocasião era provável que fosse condenado como necessariamente um pecado mortal. Omitir a oração mental cotidiana era também gravemente pecaminoso.

As mulheres não podiam usar calças, mas devem usar saias que cubram a perna inteira até o tornozelo inclusive. Alexandre VI foi um papa bom e santo, talvez o homem mais caluniado da história. Vou poupá-los de nossas lucubrações sobre a Atlântida e a grande Pirâmide.

Quanto ao estado da Igreja Católica, nós acreditávamos não somente na vacância da Santa Sé, mas também (proposição esta inteiramente distinta) que a rejeição de João Paulo II era condição absoluta para ser católico, de modo que um padre sedevacantista não podia admitir não-sedevacantistas aos sacramentos, e, se o fizesse, ele próprio estava flertando com o cisma, e dele não podiam aproximar-se para receber os sacramentos os católicos genuínos, i.e. nós mesmos e um pequeno punhado de outros.

Os sacerdotes tinham de insistir que o laicado, como condição para a recepção dos sacramentos, partilhasse de numerosas proposições, incluindo a rejeição de todo o clero ordenado depois do Vaticano II por quem quer que fosse, e especialmente a linhagem Thuc. Nem sequer em privado era permitido rezar conjuntamente com todo aquele que (tal como o Padre Baker) aprovasse ou frequentasse clero derivado de Thuc, mas com certeza teríamos desaprovado igualmente a linhagem Mendez, se existisse na época.

Nós acreditávamos que todos os bispos haviam apostatado no Vaticano II, e, mesmo que se arrependessem, não recobrariam o direito de operar como bispos. Não havia mais hierarquia nenhuma, cardeal nenhum, nenhum bispo nem possibilidade alguma de que um dia voltasse a haver um novo papa.

Agora, é claro que, entre as opiniões listadas acima, algumas são verdadeiras, outras são falsas, algumas estão a meio caminho entre as duas coisas, e não há dois católicos que concordarão sobre todas elas, por mais doutos e prudentes que sejam e não importa quanto tempo dediquem ao estudo dos elementos de prova. O número mesmo dessas opiniões, quando releio a lista hoje (e o supra é apenas uma amostra), traz à mente com força as palavras da Imitação de Cristo: “cui æternum Verbum loquitur a multis opinionibus expeditur: aquele a quem o Verbo eterno fala é libertado de uma multidão de opiniões.” As palavras de Kempis, que hoje me parecem um alívio tão grande e tão revigorantes, teriam feito pouco sentido para nós na época: não tínhamos o menor desejo de ser libertados das opiniões. Queríamos multiplicá-las e, de todo modo, não gostávamos de ouvir as nossas opiniões serem chamadas de “opiniões”. Éramos da opinião de que elas fossem algo mais do que isso.

Em acréscimo às convicções específicas que nós tínhamos, o nosso grupo era também decididamente presa de certas atitudes, as quais não eram expressadas nos termos que estou prestes a usar, mas governavam os nossos pensamentos e atos tão definitivamente como se foram verdades reveladas.

Nós deixávamos pouquíssima margem para a epiqueia, insistindo na obediência à letra da maioria das leis.

Nós deixávamos pouquíssima margem para o “pecado material”: embora aceitássemos teoricamente a noção de que um homem possa agir mal enquanto crê inocentemente que age bem, e sem incorrer em culpa diante de Deus, na prática quase todo ato que nós acreditávamos ser errado, nós também julgávamos que fosse subjetivamente culpável.

Nós deixávamos pouquíssima margem para erros inocentes e absolutamente nenhuma possibilidade de que talvez um homem ainda não estivesse culpavelmente em erro depois de provas “objetivamente suficientes” lhe terem sido fornecidas. E estávamos prontos a garantir a “suficiência objetiva” de qualquer prova que nos tivesse convencido a nós. Em específico, nós acreditávamos —bem erroneamente— que a Lei Canônica presume que todo católico que efetivamente acredite em uma doutrina herética seja presumido pertinaz, mesmo que ele de fato esteja determinado a crer no que a Igreja ensina e só tenha errado por inadvertência acerca de um ponto factual, quanto a qual seja a doutrina católica sobre um tópico específico. E, muito embora este juízo fosse considerado tocante ao foro externo, tínhamos pouca hesitação em julgar regularmente o foro interno também: conseguíamos detectar um pecador mortal a um quilômetro de distância, não obstante a sua hipócrita profissão de ortodoxia e de virtude. Não havia nenhuma inclinação caridosa em defesa do suspeito: nós já estávamos sendo altamente caridosos em adverti-lo a sair do pecado mortal; a ideia de que ele talvez não estivesse em pecado mortal seria não caridade, mas liberalismo.

Benévolo leitor, sua primeira reação à descrição acima talvez seja de perplexidade com o fato de não termos acrescentado o Feeney-ismo à nossa lista de convicções e fundado uma seita para católicos ingênuos no Novo México, destarte privando Richard Ibranyi de sua futura vocação.

Sua segunda reação talvez seja se perguntar o que é que um bom moço como eu (sorriso forçado) fazia numa associação tão esquisita. E a sua terceira reação bem poderia ser de absoluta perplexidade ante a ideia de que uma pessoa tão sábia, bem informada e judiciosa como o Padre Shelmerdine pudesse, sequer por um instante, ter contemplado envolver-se conosco.

Não tenho desejo algum de desculpar meu próprio desatino naqueles dias longínquos. Faz muito tempo já que abjurei a crença que eu tinha na década de 1980 a qual pretendia fazer do sedevacantismo ou da adesão a qualquer outra proposição (verdadeira ou falsa) uma condição de catolicidade ou de admissibilidade aos sacramentos, a menos e até que essa proposição tenha sido diretamente e explicitamente proposta pela Igreja para a aceitação compulsória de todos os filhos dela. E, independentemente de qual dentre as controversas opiniões seculares acima mantenho ainda, faz muito tempo já que rejeitei a importância que na época associávamos a tantas dessas questões. Repudio a atitude segundo a qual uma pessoa que possua “a verdade” sobre todas essas questões seja mais bem instruída e um homem mais completo, ou com maiores chances de salvar sua alma, do que alguém que tenha dominado a filosofia e a teologia de S. Tomás sem se interessar muito por assuntos secundários. Tanto mais repilo as atitudes opiniáticas e litigiosas que inculcávamos, insistindo nós que os demais ou refutassem ou aceitassem nossas pretensas provas sobre esses tópicos e muitos outros.

Mas é nada mais que justo com a memória do Padre Shelmerdine observar que, no meio deste rodamoinho de opiniões cridas dogmaticamente sobre todos os assuntos debaixo do sol e da barafunda de atitudes não-cristãs que as acompanhavam e moldavam a vida de cada um de nós naqueles dias, existiam fatores positivos que explicam a decisão dele de aliar seus esforços conosco. Esses fatores incluíam a sua prévia concordância com uma porção de nossos pareceres, nossa óbvia sinceridade e a piedade ou mesmo o fervor de alguns dos associados conosco, o respeito dele pela inteligência dos dois “intelectuais” do grupo e —talvez mais do que tudo— a profunda humildade dele próprio, que o enchia de desconfiança de si e de confiança agradecida nos que lhe tinham mostrado a verdade importante e genuinamente demonstrável de que a Igreja não teve nenhum verdadeiro cabeça visível desde o Vaticano II.

Depois de se aposentar da medicina, Shelmerdine passou a maior parte do ano seguinte (1985) em casa, no Transvaal, estudando os escritos fornecidos por nós sobre a religião e sobre as incontáveis outras questões controversas mencionadas acima, e em novembro de 1985 retornou a Londres para duas semanas de discussões com os Srs. Gwynne e Daly da Britons Catholic Library. Ao longo dessas discussões, ele tomou a decisão de deixar a África do Sul e retornar à sua Inglaterra natal e, em janeiro de 1986, levou adiante essa intenção.

A vida toda, o Padre Philip Shelmerdine fora apaixonadamente interessado pela procura da verdade, especialmente acerca de todo assunto sobre o qual ela tivesse se obscurecido na opinião pública ou sido substituída pelo erro. Embora os jovens zelotas que nós éramos tenhamos conseguido convencê-lo de muitas de nossas controversas opiniões, não acho —e hoje fico bem feliz com isto— que alguma vez tenhamos conseguido infectá-lo com as nossas atitudes subjacentes. Por exemplo, bem que sempre disposto a debater, ele não era de índole dogmática: o enfoque dele ao discutir qualquer assunto (salvo o que é divinamente revelado) era sempre: isto é o que eu penso e aqui estão as minhas razões para pensar assim; se estou errado, mostre-me por favor onde eu erro. E o tom dele era sempre de mansidão e de humildade sinceras. Por essa razão, ele continuou afetuosamente benquisto mesmo por muitos daqueles com que discordava, enquanto os principais protagonistas na Britons Catholic Library tinham naqueles tempos uma reputação, não de todo imerecida, de “zelo amargo” e de preferirem a apologética do fel e do azedume a alternativas mais brandas.

O ano de 1987 assistiu a um declínio na saúde do Padre Philip Shelmerdine. O êxito dele em perder excesso de peso assim que chegou à Inglaterra a princípio se provara benéfico, mas ele agora parecia debilitado e começou a aparentar ser mais velho do que era. Ele sofria de problemas na coluna e com imobilidade, ao que se seguiram outros sintomas inquietantes. Depois da morte, o seu exame post-mortem revelaria que ele vinha sofrendo de hipertrofia da próstata, que, por constrição, provocara os problemas renais que causaram a morte dele, mas na época não se sabia de nada disso. Como foi que o diagnosticador perito que ele era deixou de reconhecer seus próprios sintomas, e conseguiu sofrer insuficiência renal progressiva sem aparentemente nem suspeitar do que havia de errado, é um mistério que jamais solucionei.

O começo de julho encontrou o Padre Shelmerdine ainda mais fraco e acamado, e trouxe de vez em quando acessos de delírio. Mas havia uma extraordinária qualidade espiritual acerca do delírio desse sacerdote. Numa ocasião, observei-o enquanto sua mente divagava e as palavras dele pareciam sem sentido, mas depois de uma hora ou duas ele recobrou a lucidez e pareceu muito comovido com algo que tinha visto. Ele me falou de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cuja imagem tinha sempre perto da cama. Parecia que, em seu vaguear, ele estivera em perigo, e ela interviera para resgatá-lo. Ele referiu-se a sua “boca pequena e sábia” e, então, ficando mais plenamente consciente e percebendo talvez que tinha sido indiscreto, cessou de falar do que tinha vivenciado.

Lá pelo décimo dia do mês, ficou claro que o Padre Shelmerdine estava em estado de falência total dos rins. Ele tomou a deliberada decisão de não procurar cirurgia, mas em vez disso preparar-se para a morte. Foi aconselhado a não chamar um sacerdote, sob a alegação de que, muito embora seja válido e lícito para um moribundo confessar-se a um padre do qual, noutras circunstâncias, seria ilícito receber os sacramentos, era inobstante mais prudente e mais edificante não tirar proveito dessa tolerância. Ele aceitou esse conselho.

O leitor terá razão de ficar chocado com a ideia de um sacerdote morrendo sem os sacramentos, principalmente quando os argumentos aduzidos para mostrar a inaceitabilidade do (por exemplo) Padre Oswald Baker (que vivia a cerca de 160 km) eram tão fracos. Mas eram aquelas as nossas crenças sinceras na época, e a prova mais clara de que o Padre Shelmerdine estava sem culpa em agir em conformidade com elas é o fato de que a morte dele foi superlativamente edificante. Os seus atos das virtudes teológicas e sua extraordinária resignação e devoção eram de tal envergadura, que não deixavam dúvida de que ele estava na amizade de Deus. Shelmerdine aguardou a morte com a mesma tranquilidade de se esperasse um ônibus, aproveitando a oportunidade para conversar, rezar, ler as vidas dos santos e estudar a Consolação da Filosofia, de Boécio.

Vários amigos, eu incluso, nos revezamos em turnos para ficar ao lado do padre moribundo. Na manhã da terça-feira, 14 de julho de 1987, perto das 9 horas era meu turno, e o paciente estava excepcionalmente lúcido, mas obviamente muito fraco. Conversamos sobre a devoção a Nossa Senhora e, em especial, a doutrina de São Luís de Montfort da “escravidão” a Maria. Ali e então, Philip Shelmerdine fez uma consagração total de si mesmo como escravo de Maria, entregando à Mãe de Deus tudo o que era dele, os seus bens, temporais e espirituais, seu corpo e alma, sua família e reputação, seu coração e inteligência, sua vida e sua morte. Enquanto ainda falávamos dessas coisas, ele perdeu o poder da fala e ficou reduzido a simbolizar pelos gestos sua consagração a Maria. Começamos então os mistérios dolorosos do Rosário, mas, antes mesmo de terminarmos, ficou nítido para mim que a passagem da alma para a eternidade era iminente. Outros dois juntaram-se a nós no quarto do doente, e começamos a recitar as orações pelos agonizantes. “Parte deste mundo, alma cristã, em nome de Deus Pai onipotente, que te criou! Em nome de Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, que por ti padeceu! Em nome do Espírito Santo, que sobre ti desceu; em nome da gloriosa e santa Mãe de Deus, a Virgem Maria!… Seja hoje, em paz, teu lugar e tua morada no monte santo de Sião.”

Sua respiração ficou mais rarefeita, e gradualmente imperceptível. Sugerimos algumas invocações finais a Jesus e Maria. Apenas os seus olhos alertas nos diziam que ele ainda estava neste mundo. Então um olhar de leve surpresa atravessou suas feições, e os olhos escureceram. A alma dele, trazendo os caráteres indeléveis do Batismo, da Confirmação e do Santo Sacerdócio e revestida (não tenho dúvida alguma) da veste nupcial da caridade divina, compareceu perante Jesus Cristo.

 

Rev. Pe. Dr. Philip Shelmerdine, descanse em paz.

(“E eu suscitarei para mim um sacerdote fiel.” (1 Reis 2, 35)
POR CARIDADE, ROGAI PELO REPOUSO DA ALMA DO REV. PE. DR. PHILIP SHELMERDINE, sacerdote da arquidiocese da Cidade do Cabo, na África do Sul, que faleceu a 14 de julho de 1987, aos 78 anos de idade e no 25.º ano de seu sacerdócio. Descanse em paz.)

 

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O PADRE PHILIP SHELMERDINE 1909–1987
J. S. DALY
(2008)

CAPÍTULO 1: O PROTESTANTISMO, A PRISÃO E PADRE
CAPÍTULO 2: ENFIM, SACERDOTE
CAPÍTULO 3: DESAFIANDO BUGNINI EM SEU COVIL
CAPÍTULO 4: UM PADRE CONTRA OS BISPOS
CAPÍTULO 5: A QUESTÃO DO PAPA
CAPÍTULO 6: OS ÚLTIMOS ANOS

 

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J. S. DALY, O Padre Philip Shelmerdine 1909–1987. Capítulo 6: Os Últimos Anos, 2008; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, ag. 2016, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2JX